quinta-feira, 30 de junho de 2016

INFORMACAO E CONHECIMENTO: desafios do administrador do futuro


Nas ultimas décadas convivemos com o fato de que o meio empresarial, de um modo geral, vem sofrendo intensas transformações, grande parte causadas pelo desenvolvimento de novos modelos de gestão, do incremento das tecnologias de informação e comunicação, bem como o fenômeno da globalização. Todo esse desenvolvimento culminou no aumento do número de empresas, da mão de obra capacitada e do nível de exigências dos consumidores, fatores esses que geram, naturalmente, a concorrência. Como meio de suportar os intensos avanços da competitividade, as empresas passaram a investir em estratégias de sobrevivência.

No Brasil, especialmente, os modelos baseados em estratégias ganharam grande espaço, já que a abertura de mercado trouxe uma quantidade grande de novas empresas, cujas tecnologias e know how apresentavam-se mais avançados. Desse modo, a partir da década de 1990, o avanço na implementação de modelos de estratégia, a criação de áreas especificas de inteligência nas organizações e a remodelagem profissional nesse âmbito, cresceram de forma exponencial.

Destaca-se que os modelos de gestão se desenvolvem em alta velocidade, ainda que tenhamos tido um período de cem anos na produção de grande parte desses modelos, visto que a administração empresarial tem evoluído sobremaneira desde o início da década de 1910 quando ocorreram grandes saltos em seu desenvolvimento, especialmente no âmbito industrial. Contudo, a década de 1990 passou a produzir provavelmente uma das mais elaboradas concepções sobre gestão, estratégia, inteligência e competitividade do meio empresarial. Naquela década, cujas características acima mencionadas pressionavam as empresas a buscar desenvolvimento, nascia também grande parte dos modelos de gestão baseados em informação. Tais modelos se desenvolvem ate os dias de hoje a passos largos, intensos, avançando para uma sociedade conhecida por representar a “Era da informação”, sendo também muitas vezes identificada por alguns meios como sendo a “Sociedade do Conhecimento”.

Nesse contexto, o papel do administrador passou a ser de superação, já que lidar com informação não se trata de tarefa fácil, considerando-se que esta existe e se dissemina via fluxos informacionais, os quais percorrem as veias das empresas sob as formas formais e informais. Esses fluxos formais e informais são diversos, fluidos, possuindo muitas vezes uma velocidade que dificulta sua apropriação quando estão sob a forma informal. Quanto aos registros e suportes que armazenam os fluxos formais, estes nem sempre são utilizados da forma adequada pelas empresas, já que as mesmas nem sempre lidam de maneira adequada com seus documentos que necessitam de manuseio especial, mas especialmente quando se faz uso de tecnologias, considerando-se que nem todas as empresas conseguem adaptar-se ao uso dos mesmos, sendo ainda que muitas não possuem recursos para os pesados investimentos nesta área. Ao mesmo tempo em que se lida com o desafio da gestão interna da informação, se faz necessário gerir também a informação externa, que independe muitas vezes do próprio negócio na empresa. São as chamadas informações conjunturais, que dizem respeito ao setor especificamente a questões políticas, composição de dados econômicos (micro e macro), incluindo-se também informações culturais, geográficas, regionais, indo até inclusive a esfera biológica. Destaca-se, sob essas considerações, as afirmações de Lopes (2010), porquanto a autora afirma que,

o conhecimento no contexto empresarial é extremamente importante, não somente enfocando o contexto interno, como o compartilhamento de informação sobre as rotinas da empresa. Extrema importância deve dada ao contexto externo, considerando-se os demais interessados nos negócios da empresa como clientes e investidores, por exemplo. Tais públicos necessitam de uma gama de informações que serão fundamentais para o processo de construção de conhecimento sobre os produtos, serviços e negócios de um modo geral. (LOPES, 2010, p. 58)

Nesse sentido, pode-se afirmar que a informação é, sem dúvida, insumo fundamental para o trabalho dos administradores, uma vez que estes tomam suas decisões realizando a avaliação de um conjunto de informações diversas que podem impactar de forma positiva ou negativa nos negócios. Sob essa perspectiva, é fundamental destacar a importância da construção de conhecimento nesses ambientes, já que este é baseado na apropriação de informações, sua interpretação, avaliação por parte dos administradores no que tange ao negócio, ou seja, a apropriação de um conjunto de informações, ou de uma informação especifica, constitui-se como parte fundamental do processo de construção de conhecimento.

Portanto, evidencia-se que a informação é extremamente relevante para a construção de conhecimento no âmbito empresarial, pois é a partir do momento em que o administrador se satisfaz com as informações acessadas e apropriadas, teoricamente está mais bem preparado para tomar a melhor decisão. Para Castells (2005) no novo tipo de economia a fonte fundamental de desenvolvimento se encontra na habilidade de obter novos conhecimentos e aplicá-los a cada espaço das atividades humanas, por meio de procedimentos vinculados a informação.

Considerando-se o atual estágio de competitividade empresarial, já mencionado, que vem marcado por constantes mudanças e necessidade de desenvolvimento, é essencial lançar mão da gestão da informação como ferramenta de análise, identificação e compreensão da estrutura do mercado em que a empresa atua, considerando-se que este instrumento é capaz de auxiliar na definição e no posicionamento estratégico da empresa. Quanto ao posicionamento estratégico e níveis de tomada de decisão, destaca-se a abordagem da Figura 1.

Figura 1: Tomada de decisão baseada em informação e conhecimento no contexto empresarial.
   

 Fonte: Elaborado pela autora


A figura apresentada destaca os níveis existentes dentro de uma empresa, considerados aqui de uma forma genérica, já que um ambiente empresarial possui inúmeros níveis departamentais. Nesse sentido, destaca-se as relações internas e externas da empresa, no tocante a apropriação e uso da informação. Observa-se que o nível estratégico utiliza um conjunto de informações externas, nos níveis micro e macro, não utilizados pelo nível operacional, que por sua vez necessita mais de informações sobre políticas internas, processos, rotinas, métodos racionais e não interpretativos, pois trata-se de uma área que realiza a produção de bens e/ou serviços, ao passo que as áreas estratégicas da empresa realizam todo o processo de tomada de decisão, análise de setor de atuação, considerações sobre abertura de filiais que necessita a avaliação interpretativa e realização de pesquisas, enfim, são tomadas de decisões baseadas em informações, porém, cada um possui focos e fontes distintas, bem como um processo de apropriação particular e, consequentemente, a construção de conhecimento específica.

Quanto ao papel do administrador no processo de apropriação e uso da informação como subsídios para a construção do conhecimento organizacional, pode-se afirmar que este deve considera-lo em função dos indivíduos que nela atuam, seja a partir do conhecimento trazido pelos fundadores ao longo dos anos e que foi sendo construído na medida em que os processos e métodos da empresa foram sendo elaborados. Também se considera o conhecimento advindo de experiências trazidas de fora por executivos contratados, constituindo o conjunto de saberes que fazem parte do conhecimento organizacional.

Pode-se dizer que o administrador torna-se capaz de desenvolver estratégias baseadas em informação e conhecimento, quando passa a compreender questões como:

§  onde estão as informações da empresa;
§  quais os fluxos informacionais existentes no ambiente empresarial;
§  quais são e onde estão as informações do âmbito externo que podem impactar o negócio da empresa;
§  onde está o conhecimento da minha equipe e, especialmente, de que forma eu posso utilizar o conhecimento existente dentro da empresa como ferramenta de gestão estratégica.

Finalizando, argumenta-se que o papel do administrador na gestão da informação deve ser visto como um processo capaz de ampliar as possibilidades estratégicas da empresa, considerando-se que a informação é base para o processo de planejamento, controle financeiro, análise de cenários, pesquisas com consumidores, planejamento de marketing, gestão de estoque, gestão de produção e logística, e a tomada de decisão propriamente dita. Nessa perspectiva reside a necessidade da apropriação e uso oportuno da informação como subsídios para a construção de conhecimento.


Referências

CASTELLS, M. Innovación, libertad y poder en la era de la información. In: FORO SOCIAL MUNDIAL. Conferência…Porto Alegre, 2005.

LOPES, E. C. Construção de conhecimento em governança corporativa: estudo sobre a criação de valor para tomada de decisão de investidores no mercado de capitais. Marília: Unesp, 2014. 228f. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação - Faculdade de Filosofia e Ciências - Universidade Estadual Paulista (Unesp) - Marília, 2014.
 Sobre Elaine Cristina Lopes
Doutora em Ciência da Informação (UNESP-Marília). Docente do Departamento de Administração da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=981

FRBR-LRM: mais um requisito para remodelar o catalogador



ColunasFernando Modesto

FRBR-LRM: mais um requisito para remodelar o catalogador[Junho/2016]

Dentre os clássicos da literatura universal, certamente, a obra Os Três Mosqueteiros, criada por Alexandre Dumas (pai), destaca-se como principal na categoria dos romances escritos de capa-e-espada. Aliás, uma dahttp://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=983s obras cuja expressão pode ser encontrada em um sem número de traduções, relacionados à diversas versões e adaptações e que podem ser encontradas em variadas manifestações (impresso e digital). Cada um dos personagens tinha um perfil que se somava aos demais.

Também, pode-se destacar, na área dos HQs, o Quarteto Fantástico que é uma equipe de super-herói de histórias em quadrinhos publicadas pela Marvel Comics, e criado pelo escritor-editor Stan Lee e o ilustrador Jack Kirby, os quais inauguraram um novo nível de realismo no meio. Em todos eles, havia uma equipe de personalidades independentes, cujas competências se completavam, quando associadas.

Por analogia com o reino da catalogação, na atualidade, temos novos protagonistas da fundamentação teórica do registro bibliográfico. São compostos por três diferentes modelos, para aspectos específicos do universo bibliográfico, desenvolvidos de maneira independente por grupos de trabalhos vinculados à IFLA, ao longo dos últimos anos, estes modelos são:

·         Requisitos funcionais para registros bibliográficos (FRBR), com relatório final aprovado em setembro de 1997;
·         Requisitos funcionais para dados de autoridade (FRAD), com relatório final aprovado em março de 2009.
·         Requisitos funcionais para dados de autoridade de assunto (FRSAD), com relatório final aprovado em junho de 2010.

O modelo dos “requisitos funcionais” pretende servir de referência conceitual estruturado no conceito de entidade-relacionamento. Além dos já existentes, novos modelos estão sendo desenvolvidos na medida que o universo bibliográfico se expande digitalmente.

Assim, um quarto requisito está oficializado como novo integrante da família FR dos modelos conceituais. Denomina-se Functional Requirements for Bibliographic Records – Library Reference Model, ou, traduzido como: Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos – Modelo de Referência Bibliotecária, FRBR-LRM – também conhecido como “modelo consolidado” [se um era pouco, dois estava bom, e três era demais, o quarto é para complicar ainda mais a catalogação].

Certamente que os três modelos criados adotam pontos de vistas e soluções distintas para problemas bibliográficos comuns.

O objetivo agora é o de concentrar os três modelos funcionais em um só, de forma a ser aplicado na solução para problemas complexos, com pouca orientação dada pelos modelos preexistentes.

Apesar do FRAD e FRSAD terem sido finalizados respectivamente em 2009 e 2010, constatou-se a necessidade de combinar ou consolidar a família FR em um modelo único e coerente de forma a facilitar a compreensão geral dos modelos e eliminar obstáculos para a sua adoção.

Neste sentido, o Grupo de Revisão do FRBR, desde 2010, iniciou a elaboração do modelo consolidado. Por meio de uma série de reuniões de trabalho se redigiu, em abril de 2012, o primeiro desenho de consolidação das tarefas do usuário, sobre o qual se estrutura os fundamentos do FRBR-LRM. Em 2013, em evento na cidade de Singapura, o Grupo de Revisão do FRBR constituiu o Grupo Editorial de Consolidação (CEG), centrado na reformulação detalhada dos atributos e relacionamentos, e na redação do modelo.

Entre os anos de 2014 e 2015, informes foram emitidos sobre os progressos alcançados pelo Grupo de Revisão do FRBR. O último esboço do relatório final, referente ao trabalho do CEG se constitui em um primeiro informe público sobre o modelo, até então denominado, provisoriamente, pela sigla FRBR-LRM, bem como, os princípios que foram aplicados em seu desenvolvimento.

O FRBR-LRM, a exemplo dos demais requisitos funcionais, é um modelo de referência conceitual baseado na estrutura de modelagem entidade-relacionamento. Em termos gerais de enfoque e metodologia, o processo de modelagem, que resultou no FRBR-LRM, decorre da abordagem adotada no estudo original do FRBR. Entretanto, na seleção das tarefas do usuário que proporcionam o enfoque do modelo, foram consideradas as necessidades de uma ampla variedade de usuários dos dados bibliográficos e de autoridade.

Entendeu-se que os dados poderiam ser utilizados por leitores, estudantes, pesquisadores e outros tipos de usuários, além dos próprios bibliotecários, e por outros agentes inseridos na cadeia da informação bibliográfica, como os editores, distribuidores, provedores, etc.

Semelhante aos modelos FRBR e FRSAD, o FRBR-LRM se ocupa dos dados e funcionalidades que necessitam os usuários, denominados na literatura de usuários finais (e os intermediários que atuam na representação destes usuários finais) no que se refere à satisfação das suas necessidades informacionais.

Da mesma forma, também se ocupa das necessidades dos agentes: bibliotecários, e de outros responsáveis pela criação e manutenção dos dados bibliográficos e que, basicamente, desenvolvem tarefas similares no exercício de suas funções.

No contexto brasileiro, a comunidade bibliotecária envolvida com o processo de compreender as tarefas dos usuários, determinadas pelos novos princípios da catalogação, necessita dedicar melhor atenção ao entendimento e discussão de suas funções e demandas, enquanto agente enfocada pelo novo modelo.

Uma restrição inicial ao FRBR-LRM se refere à necessidade de metadados administrativos, e aos relativos à gestão de dados bibliográficos e de autoridade que também possam satisfazer as necessidades dos usuários. A associação destes dados e das suas tarefas administrativas são vitais para a prestação de serviço. Entretanto, estas tarefas não se encontram tratadas no âmbito e nem no objetivo do modelo consolidado.

Outro aspecto, é que o modelo FRAD difere dos outros dois modelos originais e do FRBR-LRM. O FRAD considera em seus propósitos tanto as necessidades dos usuários finais, como as necessidades dos dados de usos administrativos pelo bibliotecário aplicados na definição das tarefas do usuário.

Neste sentido, o FRBR-LRM se baseia em cinco tarefas genéricas do usuário, que confirmam a sua orientação às necessidades do usuário, a saber:

§  Encontrar: buscar segundo critérios pertinentes a fim de reunir informação sobre um ou vários recursos de interesse.
§  Identificar: entender a natureza dos recursos encontrados e distinguir entre os recursos similares.
§  Selecionar: determinar a pertinência dos recursos encontrados e escolher (aceitando ou excluindo) recursos específicos.
§  Obter: acessar o conteúdo do recurso.

As tarefas do usuário são formuladas sob o enfoque do apoio à capacidade do usuário em realiza-las. Na descrição das tarefas, o termo "recurso" é usado de forma ampla para representar a qualquer das entidades definidas no FRBR-LRM, assim como, aos recursos reais da biblioteca.

A decomposição do processo de busca da informação contido nas cinco tarefas pretende extrair os aspectos básicos deste processo. Ainda que as tarefas se enumerem em uma ordem determinada, a intenção não é a de indicar que estes são passos obrigatórios no processo de busca realizado pelo usuário.

Em realidade, a busca é um processo iterativo e tangencial em qualquer das etapas. Algumas tarefas do usuário podem ocorrer de maneira simultânea na sua mente (identificar eselecionar, por exemplo).

As quatros tarefas (encontrar, identificar, selecionar, obter) podem ser vistas, também, como generalizações das tarefas do FRBR, até por terem os mesmos nomes. As tarefas encontrar eidentificar também aparecem no FRAD e FRSAD.

O FRBR-LRM inclui, também, a tarefa explorar definida no FRSAD, bem como a tarefacontextualizar constante do FRAD. Entretanto, a tarefa justificar do FRAD, em sendo uma tarefa relacionada com o trabalho do bibliotecário, não se encontra abordada no âmbito de aplicação do FRBR-LRM.

Um aspecto específico do Modelo é a definição de uma entidade única de nível superior denominada res (ou "coisa" em latim, uma generalização da entidade do FRSAD denominadathema). As outras dez entidades constantes no Modelo são definidas como subclasses diretas ou indiretas do res. Das dez entidades, oito são consideradas subclasses diretas dores, são elas: obra, expressão, manifestação, item, agente, nomen, lugar, período de tempo. No quadro 01, compila-se estas entidades e suas relações.


Quadro 01: Entidades do FRBR-LRM
Entidade
Definição
Fonte
Res
Qualquer entidade no universo do discurso
Renomeado do FRSAD: Thema
Obra
Mantido do FRBR
Expressão
Mantido do FRBR
Manifestação
Mantido do FRBR
Item
Mantido do FRBR
Agente
Entidade que exerce relações de responsabilidade com aObrasExpressões,Manifestações ou Item.
Nova: superclasse de Pessoa eGrupo
Pessoa
Ser humano individual
Mantido do FRBR
Grupo
Coletivo ou organização de pessoas que utiliza um nome particular e atua como uma unidade.
Nova: inclui os tipos Família e Entidade Corporativa
Nomen
Qualquer signo ou disposição de signos pelo qual uma entidade é conhecida
Fusão de FRSAD: Nomen; e FRAD: Nome e Ponto de acesso controlado (inclui o tipo Identificador)
Lugar
Extensão de espaço dada
Readaptado do FRBR: Lugar
Período de tempo
Extensão temporal com um princípio, um final e uma duração
Nova
Fonte: Compilado do Relatório do FRBR-LRM

As duas entidades finais (lugar e período de tempo) são subclasses da entidade agente que é composta de pessoa e grupo.

Por último, no FRBR-LRM estão predefinidos três tipos específicos de entidades: família eentidade corporativa, que são tipos de grupos, e o identificador que é um tipo de nomen.

Ainda, diferente dos modelos FR existentes, o FRBR-LRM estrutura suas entidades mediante relações hierárquicas. Significa que algumas entidades se declaram como superclasses de outras entidades que, portanto, têm relações de subclasse com aquelas.

Qualquer instância de uma entidade subclasse é também uma instância da superclasse. Esta relação é expressa como IsA (é um/a). Isto permite simplificar o modelo e evitar a repetição dos atributos e as relações que se definem.

Por exemplo, no FRBR-LRM a entidade pessoa é uma subclasse da entidade agente; isto pode expressar-se como: Pessoa ßàIsAßàAgente.

Posto que todas as pessoas são agentes, qualquer relação ou atributo que se aplica à entidade agente, também será aplicada à entidade pessoa, sem necessidade de ser definidos explicitamente para a entidade pessoa.

Isto não se cumpre no sentido inverso; as relações ou atributos definidos explicitamente para as entidades subclasse não se aplicam automaticamente a toda a superclasse. Assim, por exemplo, a entidade pessoa tem com a entidade lugar a relação: é o lugar de nascimento de; esta relação não se mantém para aqueles agentes que são grupos (os tipos família e entidade corporativa).

No geral, com exceção daquelas entidades relacionadas por hierarquias IsA, as entidades declaradas no modelo não estão articuladas. As entidades não articuladas não podem ter nenhuma instância que às vezes sejam uma instância de mais de uma destas entidades.

Estes últimos parágrafos, procuram ilustrar a abordagem geral do modelo, indicando que a finalidade do FRBR-LRM não é de um simples processo de encaixar os três modelos em um único conjunto, mas um exercício de modelagem para resolver as diferenças entre os modelos. Ele requer um olhar atento dos profissionais aos modelos existentes, com vistas a incorporar os conhecimentos adquiridos desde suas publicações, e por meio dos quais se possa subsidiar o processo de pesquisa realizada pelo usuário, além da experiência com a aplicação dos modelos conceituais no ambiente de trabalho bibliotecário.

Entretanto, observa-se que o Modelo tem recebido questionamento por parte da comunidade bibliotecária. Dentre os questionamentos, comenta-se a existência de muitas hipóteses por trás do relatório apresentado e que não são compartilhados com a comunidade profissional, incluído o contexto global do FRBR-LRM.

Por exemplo, indaga-se se ele pretende ser um modelo para sistemas de bibliotecas reais? Também, a exemplo do FRBR, as tarefas do usuário são consideradas inadequadas para expressar a complexidade das necessidades dos utilizadores a quem o catálogo bibliográfico deve satisfazer.

Nota-se, nas primeiras discussões, que o FRBR-LRM apresenta pouca clareza em relação ao modelo de entidade e a finalidade de um modelo conceitual, dentro desse contexto. Há dúvida se o FRBR-LRM é um modelo descritivo do universo bibliográfico, ou se tem a intenção de ser prescritivo dos dados bibliográficos que descrevem os recursos da biblioteca.

Enfim, como no HQ, aguardemos os próximos capítulos; e como nos romances de capa-e-espada esperemos que nos capítulos finais, se chegue a um bom termo na compreensão da história.

 Fernando Modesto

COMO REALIZAR ESTUDO DE USO E USUÁRIOS DA INFORMAÇÃO?

[Junho/2016]

No campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação, o setor de estudo de usuários, usuários da informação e/ou estudo de comunidades e usuários têm se constituído como um dos mais efervescentes no desenvolvimento de pesquisas e práticas técnico-científicas desde a década de 1970 até os dias mais atuais.

No entanto, a mesma condição no contexto da pesquisa e prática técnico-científica não ocorre na prática profissional do bibliotecário quando se trata da realização de estudo de usuários. Há um conjunto de razões pelas quais ocorre desproporção entre pesquisa e prática profissional sobre estudo de usuários, a saber:

a)    embora os estudos de usuários tenham se desenvolvido de forma latente no âmbito dos sujeitos e não somente dos sistemas, ainda é comum nas mentalidades organizacionais o foco no sistema (ambiente de informação) em detrimento do foco nos sujeitos da informação;
b)    os estudos de usuários são vistos como atividades eminentemente especializadas e formais, visto que estão pautados na aplicação de métodos e técnicas de pesquisa para sistemas e sujeitos, o que demanda tempo e esforço intelectual de uma equipe para realização, o que muitos ambientes de informação não dispõem;
c)     os estudos de usuários envolvem uma lógica de negociação entre a comunidade de usuários e a organização, tendo o bibliotecário como mediador e nem sempre a organização está apta a implementar mudanças solicitadas pelos usuários;
d)    como a organização nem sempre está disposta a mudanças, pode haver inibição do bibliotecário em expor seu trabalho e perspectivas de avaliação sobre o fazer do ambiente de informação, o que pode expor de maneira negativa a atuação do bibliotecário;
e)    os estudos de usuários demandam formas diversas de realização como identificação de necessidades de informação, satisfação, planejamento de serviços, qualidade do acervo, entre outros aspectos que não são facilmente identificáveis e apresentam certas dificuldades de resolução.

Diante de tantos aspectos potencialmente negativos, por quais motivos é pertinente a realização de estudo de usuários em ambientes de informação dos mais diversos tipos?

A primeira pertinência ou vantagem incide sobre a aproximação entre ambiente de informação e usuários (sujeitos da informação) mediada pelo bibliotecário e equipe no sentido de promover uma mudança cultural na forma como estes sujeitos observam o ambiente de informação. A partir do momento em que os sujeitos são conclamados a participarem e se posicionarem, há uma potencialização reflexiva nestes sujeitos de que o ambiente de informação não é um espaço hermético, estanque e burocrático, mas que está apto ao diálogo, interação e construção coletiva de práticas informacionais.

A segunda pertinência é que os estudos de usuários não necessariamente precisam se constituir a partir de práticas formais, mas por meio de diálogos informais entre bibliotecários e sujeitos da informação, observações sobre os sujeitos, acervos, serviços e a própria gestão do ambiente de informação, há uma fluência dos estudos de usuários como forma do bibliotecário compreender estratégias de ação informacional.

A terceira pertinência é que os estudos de usuários podem se constituir como meio institucionalizado do bibliotecário negociar junto à organização em que atua (escola, universidade, empresas, bancos, indústrias, hospitais, repartição pública etc.) perspectivas de mudanças, aprimoramentos, intervenções e interferências do ambiente de informação no cotidiano dos sujeitos da informação. Um ambiente de informação, em especial, biblioteca que conta com a efetiva cobrança e participação dos sujeitos que a utilizam pode ser aliado para que a organização estabeleça um olhar mais cauto e planejado para a cultura organizacional do ambiente de informação.

A quarta pertinência está situada na condição de um conhecimento do ambiente de informação sobre si mesmo, assim como sobre o aprimoramento dos procedimentos de atuação do ambiente de informação. Com estudo de usuários é possível perceber deficiências e perspectivas do ambiente de informação, assim como estabelecer um olhar mais amplo sobre a comunidade a fim de otimizar melhores serviços e, principalmente, de estreitar parcerias com a própria comunidade a fim de dinamizar as práticas informacionais do ambiente de informação que pode envolver contribuição dos sujeitos na realização dos serviços, captação de recursos humanos e financeiros com organizações e sujeitos externos ao ambiente de informação promovendo relativa sustentabilidade diante da organização em que está inserida (escola, universidade, empresas, bancos, indústrias, hospitais, repartição pública etc.).

De certo modo, há duas grandes possibilidades de realização de estudos de usuários: estudo de uso de um ambiente de informação (abordagem tradicional voltada para o sistema) ou estudo voltado para o usuário em si (abordagem sócio-cognitiva pautada nos sujeitos contemplando necessidades de informação e perspectivas de satisfação).

Considerando esta breve exposição sobre estudo de uso e usuários vale destacar que há um conjunto de razões muito promissoras para realiza-los no que tange ao desenvolvimento do ambiente de informação como um todo (acervo/dinamização do acervo, serviços de informação, gestão da informação, planejamento uso de tecnologias, necessidades de informação, satisfação dos usuários, entre outros).

Desse modo, como é possível realizar estudo de uso e usuários em ambientes de informação, visando produzir efeitos exponenciais para dinamização das práticas informacionais? O quadro abaixo indica possíveis setores, estratégias e finalidades dos estudos de uso e usuários em ambientes de informação.

Setor
Estratégia/Procedimento
Finalidade
Acervo

- Análise documental
- Análise de conteúdo categorizando o acervo da biblioteca
- Identificação dos itens mais utilizados
- Identificação de múltiplos suportes (impresso, digital ou virtual) a serem utilizados nas bibliotecas como materiais bibliográficos, documentais, iconográficos, audiovisuais etc.
- Realização de entrevistas e aplicação de questionários/formulários com a comunidade para avaliação do acervo;
- Uso de metodologias para políticas de acervo;
- Formação de uma comissão entre os diversos sujeitos da comunidade para discutir sobre formas de constituição do acervo da biblioteca.

Dinamização do acervo do ambiente de informação, especialmente a biblioteca.
Catálogo
- Verificação de catálogos de biblioteca referência em nível global e nacional;
- Orientação/treinamento aos usuários para uso adequado do catálogo;
- Orientação aos usuários para uso de diversos itens bibliográficos como catálogos, cabeçalhos de assunto, bibliografias, bases de dados, etc.);
- Realização de entrevistas e aplicação de questionários/formulários com a comunidade para avaliação do catálogo;
- Formação de uma comissão entre bibliotecários e especialistas da comunidade para definição dos termos mais adequados para uso no catálogo.
Avaliação da eficácia do catálogo no processo de busca, localização e uso de um item no ambiente de informação.
Tecnologias
- Teorias e práticas de usabilidade para o estímulo de uso de sistemas de informação
- Técnicas para identificação do comportamento dos usuários em ambientes virtuais no contexto da teoria Behaviorista
- Aplicação de técnicas para interação entre usuários e sistemas de informação com base em estudos e práticas de arquitetura da informação.
Práticas de uso de conteúdos em ambientes digitais/virtuais
Serviços
- Realização de técnicas como entrevistas, questionários, formulários, grupo focal, técnica do incidente crítico, etc. para:
a) planejamento dos serviços;
b) avaliação dos serviços;
c) proposição de novos serviços;
d) necessidades de novos serviços;
e) satisfação dos serviços;
f) tipificação e execução de serviços, tais como: serviço de referência e informação, serviço de alerta, serviço de informação utilitária, disseminação seletiva da informação (DSI), ação cultural, entre outros.
- Uso e apropriação dos serviços de informação pelos usuários
- Eficácia dos serviços de informação

Planejamento
- Realização de técnicas como entrevistas, questionários, formulários, grupo focal, técnica do incidente crítico, etc. para:
a) gestão da informação na biblioteca;
b) serviços de informação;
c) políticas de acervo;
d) uso de tecnologias;
e) planejamento de pessoal.
- Dinamização das práticas de planejamento do ambiente de informação
- Participação dos usuários da informação no planejamento do ambiente de informação.
Sujeitos
Aplicação de métodos e técnicas focalizadas nos sujeitos da informação, a saber:
a) questionários
b) entrevistas
c) formulários
d) grupo focal
e) técnica de Delphos
d) Survey
f) Técnica do incidente crítico
g) sense making
h) modelo de valor agregado da informação
i) modelo de Kuhlthau
j) aplicações fenomenológicas
k) uso da hermenêutica
l) etnometodologia
m) práticas informais e diretas com o usuário como caixa de sugestões, observações indiretas, diálogos cotidianos, recado em murais, dicas por e-mail, sistema de informação, rede social, blog etc.

- identificação de necessidades de informação
- satisfação dos usuários da informação
- participação do usuário nos serviços e planejamento dos ambientes de informação
- comportamento dos usuários
- competência em informação dos usuários
- domínio do usuário sobre o uso do ambiente de informação de uma forma geral
- expressão cotidiana do usuário sobre práticas gerais do ambiente de informação
- cooperação entre usuário e ambiente de informação/profissional da informação
Quadro 1: Estudo de uso e usuários em bibliotecas
Fonte: elaborado pelo autor


Os estudos de uso e usuários em biblioteca, tanto podem estabelecer uma estratégia formal (técnicas e métodos especializados), quanto podem ser informais (oportunização do ambiente de informação para o que o usuário expresse suas mais diversas percepções sobre a atuação do ambiente de informação.

No entanto, é pertinente que o ambiente de informação inicie a ação sobre uso e usuários da informação pelo desenvolvimento de práticas informais como diálogos cotidianos, espaços em redes virtuais como blogs, sistemas, sites, redes sociais etc. a fim de dar ao usuário subsídios objetivos de participação e expressão.

As práticas informais podem fornecer dados vitais sobre quais usuários mais têm interesse de participar da construção das práticas informacionais do ambiente de informação e como buscam participar, visando, a posteriori, a formalização de práticas especializadas via métodos e técnicas para cooperação mais concreta entre representantes da comunidade de usuários, o ambiente de informação e sua equipe de profissionais considerando aspectos como acervo, catálogo, tecnologia, serviços, planejamento e a própria expressão dos sujeitos que compõem o uso do ambiente de informação (sujeito mediador que é o bibliotecário e a sua equipe e sujeito usuário).

http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=984

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Cadastro Biblioteca ID Cultura

Biblioteca Pública Municipal Sebastião Campos funciona junto com o  Telecentro Comunitário Sebastião Campos

MAPAS.CULTURA.GOV.BR