quinta-feira, 28 de março de 2013

Blog da Inaja


Inajá Martins de Almeida
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"Quando o autor coloca um ponto final na edição do livro, o mesmo acontece na mente do leitor. É a leitura que vai além do ponto..."
Inajá Martins de Almeida

sexta-feira, 22 de março de 2013

Os bibliotecários e as séries de TV

Os bibliotecários e as séries de TV

Continuação (3)

Mas a imagem aos poucos vai mudando. Em Glee, no episódio Bad Reputation, Archie, Tina, Mercedes, Kurt e Brittany tentam posar de bad guys na escola e decidem fazer isto fazendo barulho na biblioteca (o que, no caso da série, implica em fazer um número musical). A biblioteca é zelada por uma senhora idosa, de óculos e cara de poucos amigos. Mas tudo o que eles conseguem, com uma performance de U Can’t Touch This, do MC Hammer, entre as mesas da sala de leitura é um elogio dela: “isto foi muito fofo”.
Além do silêncio, um bibliotecário pode aterrorizar um estudante com suas pesadas multas por livros não devolvidos.
Em um episódio hilário de Um Amor de Família (Married with… Children), Al Bundy tenta passar a perna na velha bibliotecária – que não só se se lembra do tempo em que ele estudou no colégio, como quer cobrar dele uma multa no valor de 2.163 dólares. Ele tenta passar a perna nela, a distraindo e recolocando o livro nunca devolvido direto na prateleira. Filmado por uma câmera de segurança, Al acaba aparecendo no noticiário na televisão e se tornando a vergonha da cidade. Antes de se finalmente aposentar, ela diz para Al:
- Senhor Bundy, você se tornou o Fredy Krueger do sistema de bibliotecas.
Jerry Seinfeld também tem um problema parecido. No episódio The Library, de Seinfeld, ele é procurado pelo “library cop”, Mr. Bookman, que quer cobrar dele uma multa por um livro não devolvido em 1971! (No mesmo episódio, Kramer também se encanta pela bibliotecária – que teima em ignorar Jerry enquanto carimba livros – mas isto é assunto para o próximo tópico).
Existe um episódio de Coragem, o Cão Covarde (Courage the Cowardly Dog), chamado Fúria da Bibliotecária que resume bem o pânico que uma biblioteca pode causar numa criança, digo, cachorro:

Os bibliotecários também aparecem com vilões em Parks and Recreation. Ou ao menos são os inimigos declarados do departamento de Parques da cidade de Pawnee na disputa pelas verbas públicas. No episódio Ron and Tammy,da segunda temporada, Leslie descreve o grupo da seguinte forma:
- O departamento da biblioteca é o mais diabólico e sem escrúpulos grupo de burocratas que já vi. São como uma gangue de motoqueiros. Mas em vez de espingardas e anfetaminas eles usam a política e nos mandam ficar em silêncio.
O fetiche pelas bibliotecárias
Booth:
- Tudo que eu quero é que você tire seus óculos, solte seus cabelos e me diga: “senhor Booth, você sabe qual é a multa para um livro atrasado?”
Brennan:
- O quê?
Booth:
- Esquece.
No episódio The Passenger in the Oven, da série Bones, Booth vê a colega Brennan com os cabelos presos e de óculos e a imagina numa cena sensual, como bibliotecária. Não é o primeiro e não é o último. A imagem da bibliotecária como símbolo sexual é antiga e remonta aos desenhos das pin-ups, ilustrações e fotografias de mulheres sensuais que os soldados levavam consigo na II Guerra Mundial. Na época, as mulheres tinham muito menos espaço no mercado de trabalho, talvez por isto se tornou tão comum fantasiá-las em profissões como enfermeiras, professoras e bibliotecárias.
Em um episódio da comédia My Boys, PJ tenta seduzir Bobby, seu namorado, fantasiada como um bibliotecária sexy. A vestimenta remete a esta clássica imagem de uma pin-up – camisa branca, saia preta justa, meia calça presa por cinta-liga e, claro, os óculos de aro preto e os cabelos presos. PJ, no entanto, não tem sucesso: não consegue fazer Bobby largar o Playstation.
  
Quem não resiste aos encantos da bibliotecária é Kelso, de That ’70s Show. Ele acaba se envolvendo com Brooke, personagem introduzida na sexta temporada da série – e tem um filho com ela. Dick Solomon, o extra-terrestre de 3rd Rock from the Sun, é outro que acaba seduzido por uma bibliotecária.
Verdade seja dita, bibliotecárias parecem exercer uma atração nos jovens, mesmo não quando não são sexys. Na comédia The Middle, no episódio Thanksgiving II, o menino Brick fica excitado ao saber que uma bibliotecária vai jantar na sua casa. A bibliotecária em questão, a namorada de Bob, é bem esquisitinha. Mas Brick nem percebe, se veste especialmente para a ocasião, monopoliza a conversa com ela sobre livros e deixa Bob com ciúmes. A química entre os dois é tão boa que rola até uma piadinha interna sobre a classificação decimal de Dewey.
Brick:
- E então eu entreguei o livro para ele e ele arquivou em 592, mas era um livro de botânica!
Lisa:
- Meu Deus, todos sabem que botânica é 580-589!
Brick:
- Claro
O fascínio por bibliotecárias pode ser bem explicado pelo anti-social Abed, da série Community - série esta que tem a maioria de suas cenas ambientadas na sala de estudos de uma biblioteca. No episódio Em Early 21st Century Romanticism, ele e Troy estão apaixonados pela bibliotecária da universidade:
Troy:

 Por que ser bibliotecária a faz ser mais gata?
Abed:
- São guardiãs da sabedoria. Guardam respostas de todas as perguntas. Tipo: “Casa comigo?” e “Por que ainda existem bibliotecas?”
Piadinhas a parte, sexys ou malvados, ou simplesmente profissionais, os bibliotecários são indispensáveis. Na ficção e especialmente na nossa sociedade.

Com a colaboração de Maísa França
Sobre o Autor
Paulo Serpa Antunes é jornalista e trabalha com produção de conteúdo para Internet desde 1995. Atualmente é editor de internet do Jornal do Comércio, de Porto Alegre. Foi o fundador do TeleSéries, em 2002. Fã de The West Wing, The Shield, Família Soprano e Ed, entre outros shows.



Os bibliotecários e as séries de TV

Os bibliotecários e as séries de TV
Continuação

De fato, os bibliotecários, e a importância de seu trabalho na sociedade, ocupam um espacinho pequeno na cultura televisiva, menor do que mereciam. Mas aqui e ali, numa série ou outra, as bibliotecas e seus responsáveis tem o seu valor mostrado. Na cena abaixo, da cômica série Batman, dos anos 60, uma cena com a Barbara Gordon, a Batgirl, aborda a importância de se manter bons acervos:
E bibliotecas costantemente são usadas como cenários de séries de TV. Seja nos dramas teen ou universitários, nas séries policiais (especialmente aquelas ambientadas em Nova York, que podem usar como cenário a imponente New York Public Library) e mesmo nas de ficção científica. Em Doctor Who, o episódio Silence in the Library é todo ambientado em um planeta que comporta a maior biblioteca do Universo, que reúne todos os livros já escritos.
Recentemente, em Once Upon a Time, a personagem Belle assume o comando da biblioteca pública de Storybrooke. Na versão da Disney do conto de fada A Bela e a Fera, a Fera tem uma biblioteca gigantesca, e a Bela é uma leitora voraz. Talvez por conta da releitura da Disney, os produtores acharam que seria interessante colocar Belle ao lado de livros. Mas é importante dizer: ser bom leitor não faz ninguém um bibliotecário – para exercer a profissão é necessário um diploma de curso superior.

O bibliotecário como disciplinador

- Bem-vindos ao castigo de sábado. Castigo não é diversão, é penitência. (…) Vocês ficarão na biblioteca até às 17h (…) Como vocês sabem eu sou a bibliotecária. Tenho coisas importantes a fazer na sala de audiovisual. Se, por algum motivo, eu tiver que vir aqui discipliná-los, vocês passarão o resto do dia guardando livros e organizando cartões.

Os bibliotecários, no entanto, sofrem com uma imagem que acabou incrustrada no imaginário popular: a do disciplinador, que impõe medo. A educação infantil mudou – mas a imagem da bibliotecária carrancuda, que pune e exige silêncio dentro da biblioteca, parece que teima em continuar.
O diálogo acima, do episódio Detention, da primeira temporada de Dawson’s Creek, resume bem isto. Exibido em 1998 na TV americana, e claramente inspirado no filme adolescente O Clube dos Cinco (The Breakfeat Club), ele mostra que na escola da cidade de Capeside, os alunos que vão pra detenção precisam passar todo o sábado presos, na biblioteca, sob a supervisão da bibliotecária.
O trabalho do bibliotecário consiste em diversas e sofisticadas tarefas, que envolve a classificação, conservação e o gerenciamento de acervos. Mas o que infelizmente cola no imaginário são as questões que envolvem o relacionamento do profissional com o usuário, o que geralmente leva a conflitos: entre elas se destaca a manutenção do ambiente da biblioteca como um espaço de silêncio. A série terror infantil Clube do Terror (Are You Afraid of the Dark?) tem um episódio, chamado The Tale of the Quiet Librarian, que aborda justamente isto. Para crianças, o silêncio pode ser algo bem assustador!

Biblioteca Unesp inaugura serviço de inclusão e acessibilidade

Biblioteca Unesp inaugura serviço de inclusão e acessibilidade


Rede Notícia - 15/03/13
A Biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC) da Unesp, Câmpus de Marília, inaugurou dia 14 de março o Serviço de Inclusão e Acessibilidade à Informação (SIAI), projeto da Coordenadoria Geral de Bibliotecas da Unesp que possibilita o atendimento e o acesso às informações para pessoas com deficiência.
Os serviços oferecidos pelo projeto foram possíveis pelos esforços do Grupo de Acessibilidade da Rede de Bibliotecas da Unesp (GARBU) em parceria com o Laboratório de Acessibilidade e Desenvolvimento (LAD) de Araraquara. O acesso a toda informação presente na Biblioteca será possível por meio de “scanners de voz”, softwares leitores de tela e outros equipamentos, bem como o treinamento adequado da equipe, que receberam capacitação voltada para o atendimento prioritário. Na Unesp de Marília, essa capacitação foi realizada em parceira com o Departamento de Educação Especial da Unidade.
Na cerimônia de inauguração realizada na manhã do dia 14 de março, a diretora técnica de serviço de biblioteca e documentação, Vania Maria Silveira Reis Fantin, afirmou o empenho da Biblioteca em atender as diversas necessidades no acesso à informação. “A Biblioteca da FFC encontra-se empenhada em buscar sempre soluções que possam contribuir para o atendimento aos usuários especiais e com os quais esta Universidade tem compromissos de ensino, pesquisa e extensão e prestação de serviços”, garantiu Vânia.
O diretor da Faculdade, professor José Carlos Miguel, também explicou a disposição da Unidade em cuidar das condições de atendimento a todos, preocupação inerente a qualquer instituição responsável. “Serviços como esses devem ser prestrados em toda e qualquer instituição responsável e a Unesp deve sim trabalhar para resolver as demandas de acessibilidade em toda a Universidade”, comentou Miguel.
O serviço é destinado às pessoas com deficiência, da comunidade interna e comunidade externa da Unesp, respeitando o regulamento de cada biblioteca. Os usuários, uma vez cadastrados no sistema da biblioteca e comprovando a deficiência, poderão utilizar os equipamentos específicos para manejo e leitura de documentos. Também poderão fazer uso de uma senha pessoal e intransferível para acessar obras em uma Biblioteca Digital Acessível (BDA) que está em fase de estudo de implantação.
A coordenadora geral de bibliotecas, Flávia Maria Bastos, também participou da cerimônia de inauguração do SIAI e explicou que na visão da CGB, todos os usuários da comunidade unespiana e da sociedade tem direito de acesso à informação. “Estamos empenhados e dispostos a aperfeiçoar esta iniciativa, e principalmente nos unir a futuros projetos relacionados a inclusão e acessibilidade no contexto da Universidade”, afirmou Flávia.
A escolha das bibliotecas a serem contempladas com os primeiros equipamentos foi baseada em estudo do anuário da Unesp, acerca do tipo, quantidade e localização das deficiências. Este estudo foi iniciado em fevereiro de 2012, onde se observou uma maior demanda de usuários com deficiência visual nos campus da universidade, caracterizando-se como prioridades na implantação do SIAI.

O mercado de livros e a vinda dos estrangeiros

O mercado de livros e a vinda dos estrangeiros


Folha de S. Paulo - 23/12/12
A retrospectiva do mercado editorial brasileiro no ano de 2012 revela um dos períodos mais movimentados de sua história, repleto daquilo que os balanços empresariais chamam de "fatos relevantes": entrada de "players" internacionais, transição da administração de perfil familiar para a gestão corporativa, "mega-sellers" que, sozinhos, faturam tanto quanto editoras respeitáveis, uma interminável dança das cadeiras num meio em que a estabilidade sempre foi moeda forte.
Curiosamente, as tentativas de interpretação dessas notícias só reforçam o quadro geral de incerteza e despertam os inevitáveis exercícios de futurologia. Mas talvez não seja no futuro, e sim no presente do mercado brasileiro, que se escondam os paradoxos comerciais e culturais que serão determinantes para a forma como o novo modelo de negócios vai se firmar por aqui.
A aquisição de 45% da Companhia das Letras pela Penguin, em dezembro de 2011, já foi em si um fato relevante, por quebrar um tabu --até aquele momento, com exceção da compra de 75% da Objetiva pela espanhola Santillana (2005), os grupos estrangeiros não haviam conseguido abocanhar editoras já existentes, optando por inaugurar novas casas do zero, como fizeram a espanhola Planeta (2003) e as portuguesas Leya (2009) e Babel (2011).
Com a fusão da Penguin com a Random House --os dois maiores grupos de língua inglesa--, em outubro, a mais prestigiosa editora brasileira foi levada para o coração da disputa travada entre os grandes grupos internacionais. A fusão foi largamente motivada, segundo disse à Folha Edward Nawotka, do site Publishing Perspectives, pelo desejo de consolidar os interesses dos dois conglomerados na América Latina, China e Índia. Já forte no mercado hispânico, com a fusão a Random House conquistou o quinhão que lhe faltava no continente.
O que não significa que a movimentação esteja consolidada. Segundo o jornal "Valor Econômico" publicou na semana passada, a Random House estaria prestes a arrematar o selo literário da Santillana no Brasil, a Objetiva. Rumores no mercado internacional apontam ainda fortes possibilidades de fusão entre Planeta e Santillana em 2013, criando um novo gigante global --e já com forte presença no Brasil. Para completar, Amazon e Apple, responsáveis pela disputa comercial que vem quebrando editoras e livrarias nos países ricos, passaram a vender e-books no Brasil. Embora os números ainda sejam ínfimos, eles tendem a crescer, e as editoras apostam na adesão dos brasileiros ao livro eletrônico.
Segundo o publisher da Companhia das Letras, Otavio Marques da Costa, 31, foi fixado um corte para a migração digital: todo livro que venda mais de 500 exemplares por ano (cerca de dois por dia útil) será digitalizado. Turbinada pelo know-how digital da Penguin, a editora se vê no dilema de enxugar o catálogo para ganhar agilidade na outra ponta.

O cenário geral, portanto, é de poucos e robustos "players" --editoras e livrarias-- trazendo práticas agressivas a um mercado ainda frágil, mas potencialmente rentável, sobretudo num contexto de crise mundial. Saem de cena o editor romântico, que gastou heranças familiares e empenho pessoal para montar editoras charmosas e com peso cultural, e o livreiro apaixonado e vocacionado, mas sem cacife para brigar por descontos.

Entre os que ganham força, estão os editores de perfil executivo, que mantêm um olho no "mega-seller" que ainda não foi escrito e outro no marketing, com baixo envolvimento com o texto. O e-book ainda põe em cena especialistas em desenvolvimento tecnológico, que até agora tinham pouco ou nenhum peso no metiê e já ombreiam, em salário e status, com os editores "de texto".

A figura do agente literário se fortalece como nunca --é praticamente impossível trabalhar com autores de língua inglesa sem passar por figuras poderosas como Andrew Wylie. Com escritórios em Nova York e Londres, o mais importante agente do mundo gerencia a obra de grandes autores impondo às editoras cláusulas contratuais pesadas que incluem, por exemplo, rigorosas aprovações de traduções até para idiomas periféricos como o português.

Agentes brasileiros também têm conseguido realizar negociações pesadas para renovar contratos de autores clássicos, historicamente ligados às editoras que os publicavam em vida. Num contexto de dependência das compras de governo, deter as obras completas de poetas e prosadores como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado torna-se mais estratégico do que poderia parecer.

PUBERDADE

O quadro geral lembra aquele momento em que um garoto repentinamente chega à puberdade, espicha e perde a cara de criança, mas ainda não se aclimatou entre os adultos. Como se, em poucos lances, um mercado singular e fechado sobre si mesmo reproduzisse em escala local a guerra editorial que se dá no mundo rico, cujo resultado principal é a concentração feroz de editoras e livrarias.
O novo cenário contrasta em tudo com os dois maiores grupos editoriais do país, os cariocas Record e Ediouro --aqui estamos sempre falando do setor de obras gerais (que exclui religiosos, técnicos e didáticos e autoajuda)--, os quais ainda funcionam sob as regras de um mercado pré-púbere. Ambos ainda parecem ancorados no século 20, com enormes parques gráficos, aquisição (e, em alguns casos, canibalização) de selos que marcaram época e uma superprodução que desorienta leitores, livreiros, jornalistas e a própria equipe. Essas editoras também são marcadas por mastodônticos fundos de catálogo (a massa de livros já publicados, que são reimpressos constantemente), que geram receita para viver com folga mesmo sem conseguir emplacar um "mega-seller" atrás do outro, mas também trazem pesadas despesas de estocagem, seguros e logística.
Florescente e disputado, o mercado brasileiro ainda padece de fragilidades que podem pôr à prova a consolidação do novo modelo negócios no país. Entre elas, estão a estagnação (ou, conforme o cálculo, até mesmo queda) do varejo, a carência de números confiáveis, a superprodução e a dependência crescente das compras de governo.
A galinha dos ovos de ouro não é arrematar o inédito de James Joyce ou o novo romance do lisboeta bacana que causou sensação em Paraty, mas sobretudo as compras de governo. Impulsionadas no governo FHC (1995-2002) e mantidas nas gestões petistas, as compras torrenciais em todos os níveis de governo são o que garante, hoje, que as contas fechem na quase totalidade das editoras.
Há editoras que chegam a prescindir do mercado, produzindo apenas bonecos (protótipos, no jargão editorial) para entrar em licitações altamente rentáveis, sem o ônus de pôr o livro nas livrarias. Editoras maiores, como a Global, claramente não priorizam o varejo e focam o trabalho com seus grandes autores, como Gilberto Freyre, Manuel Bandeira e Cecília Meireles, praticamente só nas vendas para governos.
Segundo pesquisa da Fipe, a melhor fonte num mercado em que os números carecem de confiabilidade, as vendas do setor de obras gerais no varejo tiveram crescimento irrisório: passaram de R$ 882 milhões em 2005 para R$ 903 milhões em 2011 (preços correntes, ou seja, sem descontar a inflação). No mesmo período, as compras governamentais (todos os setores) saltaram de R$ 500 milhões para R$ 1,4 bilhão.
Fontes do mercado alertam que as compras do governo são erráticas e que esse tipo de comparação pode embutir distorções. De todo modo, descontando a inflação, um cálculo conservador aponta um tombo no varejo da ordem de 23% entre 2005 e 2011, enquanto as vendas governamentais cresceram 130%.
As compras governamentais ainda podem ser um aliado estratégico na migração para o digital. Além de atender à indústria eletrônica, sequiosa por renúncias fiscais e licitações, os constantes lobbies para compra de tablets e readers para alunos da rede pública podem servir também às editoras, por instalar de graça um "receptor de e-books" em cada domicílio brasileiro. Uma espécie de aríete que abrisse caminhos para que a massa consuma e-books.
O sonho não parece impossível, já que a "massa" efetivamente está consumindo livros em papel. Como já foi apontado por muitos, a queda de qualidade nas listas de mais vendidos nada mais é do que uma nova franja de leitores invadindo a praia.
A consequência negativa dessa massificação é o efeito que se observou no mercado fonográfico: o foco em poucos títulos de altíssima rentabilidade. Mais vale um Tchan! (ou um "50 Tons") do que, por exemplo, manter em catálogo a obra de um João Gilberto (ou, nos livros, de um Murilo Mendes). Como apontou Raquel Cozer na "Ilustrada" de 15/12, o modelo invejado pelos concorrentes é o da Intrínseca de Jorge Oakim, que trabalha com um catálogo curto e de alto giro e é uma espécie de antípoda das casas cada vez mais dependentes do governo.
Nessa concepção, que não é exclusiva da Intrínseca, poucos títulos são vendidos com descontos polpudos a um número cada vez menor de livreiros, que ganham o poder de oferecer na boca do caixa até 20% no preço de capa de lançamentos, esmagando os já minguados nanicos. Fontes do mercado especulam que só "Ágape" (Globo), do padre Marcelo Rossi, possa ter faturado sozinho algo como 30% do faturamento de varejo de uma editora de porte como a Companhia das Letras.
Entre mortos e feridos, as feições do ofício de editor mudam tanto que paradoxalmente acabam por abrir espaço para que o modelo "antigo", que envolve editores e leitores com desejo lúbrico pela palavra impressa, volte à tona em nova chave.
Mal comparando, é mais ou menos como a reação gastronômica à industrialização excessiva na produção de alimentos, passando a valorizar ingredientes locais, as receitas da vovó e a tradição artesanal.
Bernardo Ajzenberg, diretor da Cosac Naify, afirma que a editora vê nesse novo cenário uma oportunidade para se afirmar como casa de prestígio, voltada ao papel. A editora tem "dezenas" de e-books prontos, mas ainda não começou a comercializá-los: Ajzenberg afirma que pretende esperar a consolidação do novo modelo de negócios enquanto busca crescer no "velho" modelo de negócios.
"O advento do digital torna ainda maior o desafio do livro impresso, e esse desafio a gente compra", disse ele à Folha. "Abre caminhos e novas possibilidades para o impresso que ainda não foram explorados."

quinta-feira, 21 de março de 2013

Os bibliotecários e as séries de TV



http://teleseries.uol.com.br/os-bibliotecarios-e-as-series-de-tv/comment-page-1/
Publicado em 12/03/2013 17:50 | por Paulo Serpa Antunes
Organizar, tratar, analisar e permitir a recuperação da informação, independente do meio e do suporte. Num mundo repleto de contéudo, é deles o papel de colocar a ordem no meio de tanto conteúdo que nos rodeia: os bibliotecários.
Neste dia 12 de março, data que celebra o Dia do Bibliotecário, o TeleSéries faz uma retrospectiva de como estes profissionais costumam aparecer na televisão – seja nas séries que valorizam a imagem e a importância da profissão, seja nas séries que perpetuam alguns valores errados que a classe gostaria de deixar para trás. Confira abaixo a nossa homenagem a todos os bibliotecários:

O Bibliotecário como guardião do conhecimento 

O personagem Rupert Giles, do drama de sci-fi Buffy, a Caça-Vampiros é certamente o mais popular bibliotecário da TV. Ao longo das três primeiras temporadas da série, o mentor da caça-vampiros Buffy, a treinou na biblioteca da escola Sunnydale High. Ser bibliotecário, poderíamos pensar, poderia ser apenas um disfarce. Mas os fãs de Buffy sabem que é mais do que isto: o local era o ponto de encontro da Scooby Gang, como ficou conhecido o grupo de amigos que a ajudavam a combater as forças do mal, e também era nos livros que o grupo encontrava as informações para combater vampiros e demômios – pra uma biblioteca escolar, eles tinham um senhor acervo de livros de magia!
Giles, num primeiro momento, nos remete aquele que o estereótipo de um bibliotecário – escondido atrás dos óculos, intelectual, tímido e contido, preocupado em impor regras para sua protegida e avesso à tecnologia. Com o passar das temporadas, outros lados da personalidade afloram e um passado misterioso se revela. Giles vai se tornando um personagem tridimensional, sofisticado, e especialmente querido dos fãs da série.
Os bibliotecários devem bastante a Joss Whedon, o produtor de Buffy, na divulgação da profissão. No spin-off Angelele também colocaria em cena uma bibliotecária: a tímida Winifred Burkle, a Fred -introduzida na segunda temporada da série, no episódio Belonging. Desaparecida por cinco anos após ser sugada para outra dimensão por ler uma passagem de um livro demoníaco (cuidado!), Fred acaba se tornando uma importante aliada de Angel e sua equipe. Fred, infelizmente, acaba falecendo na quinta temporada – uma despedida que emocionou os fãs da série.
Entre 2004 e 2008, a TNT produziu três telefilmes com Noah Wyle, inaugurando a franquia The Librarian na televisão. Noah Wyle é Flynn Carsen, um estudante-gênio, com 22 graduações no currículo, que vai trabalhar na Metropolitan Public Library. Ali ele descobre que seu papel é mais importante do que imagina: proteger uma seção secreta da biblioteca, que guarda itens mágicos. Quando uma parte da Lança do Destino é roubada da biblioteca, ele parte para uma viagem pelo mundo em busca do artefato. É, aqui temos o bibliotecário mais atlético, praticamente um Indiana Jones!
Existe ainda uma comédia dedicada especialmente ao mundo das bibliotecas. É The Librarians, que teve três temporadas exibidas entre 2007 e 2010 pela rede de TV australiana ABC. O seriado nunca foi ao ar no Brasil.


DESORDENAR UMA BIBLIOTECA: comércio & indústria da leitura na escola

DESORDENAR UMA BIBLIOTECA: comércio & indústria da leitura na escola
Miguel Sanches Neto 

Conta uma lenda que, décadas atrás, certos professores puritanos de determinada universidade do Paranámovidos por um zelo extremo, saíam, armados de impiedosas tesouras, à caça de trechos imorais dos romances. Reza ainda esta lenda que muitos livros (principalmente os de Eça de Queirós) foram “corrigidos” pelos zelosos censores.

Esta pequena história pode nos parecer bizarraQuem hoje censuraria o moderado Eça? No entanto, diversas vezes somos surpreendidos exercendo outros tipos de censura, também injustificáveis.

Uma verdadeira biblioteca, ainda mais quando se trata de uma biblioteca escolar, deve conter todo tipo de livro. É a variedade e não a especialização que define a qualidade de um acervo. Todos os livros, dos comerciais aos sérios, devem aprender a conviver, pacificamente ou não, nas estantes. É fundamental que não tentemos impor nossas preferências, uma vez que a clientela à qual eles são destinados é um feixe de destinos virtuais. A função pedagógica que nos cabe é estimular o florescimento destas virtualidades e não tentar conduzi-las para um caminho que julgamos o melhor.

Os ditos livros de estudo, os que têm uma função reconhecida na formação do aluno, precisam estar misturados com os de ficção. Em se tratando de literatura (no sentido mais amplo da palavra), todas as divisões são restritivas. A biblioteca, como um espaço aberto, tem, desde que concebida de forma menos tradicional, o papel de apagar estas fronteiras que são movediças. José Saramago, em uma passagem de O ano da morte de Ricardo Reis (Cia. das Letras, 1993), deixa reflexões valiosas para o tema que nos ocupa: “Um homem deve ler tudo, um pouco ou o que puder, não se lhe exija mais do que tanto, vista a curteza das vidas e a prolixidade do mundo. Começará por aqueles títulos que a ninguém deveriam escapar, os livros de estudo, assim vulgarmente chamados, como se todos o não fossem” (p. 141). Concebendo todos os tipos de livros como portadores de conhecimento, de graus e espécies diferentes, estaremos evitando cair no equívoco de julgar que tais ou tais obras são mais (ou menos) adequadas ao leitor mirim.

A biblioteca escolar que se queira eficaz tem que se assumir como uma infinidade de janelas abertas para o mundo e transmitir ao aluno o direito de escolher por qual delas quer ele olhar. Os efeitos da leitura não podem ser previamente definidos pelo educador. Ler é sempre uma atividade cujos resultados são imprevisíveis.

Mas a formação de uma biblioteca escolar não se restringe à busca da heterogeneidade. Ela está também diretamente relacionada com alguns aspectos das instalações físicas que, não raro, são fruto duma concepção equivocada da função deste espaço. A biblioteca é sempre encarada como um anexo da escola. Mas, na verdade, ela é a sua alma. Para se atingir este local é necessário, na grande maioria das vezes, empreender uma aventura digna de Indiana Jones. Vejamos com poderia ser o “Breve guia para uma viagem à biblioteca”:

Entre no quarto corredor à esquerda, ande 20 metros, vire à direita, passe ao lado do cão de guarda que vigia a residência do caseiro, pule a pequena valeta por onde escorre a água da chuva (cuidado!, quando molhado o terreno é escorredio), ande mais 50 metros e então encontrará um barracão abandonado, que serve de depósito, atravesse-o de uma extremidade à outra, no fundo descobrirá uma porta e nela deve haver (se ainda não foi arrancada) uma placa dizendo: Biblioteca. Entre sem bater e fique em silêncio.

A biblioteca não pode ser vista como um lugar secundário do estabelecimento escolar. Ela é o cerne do ensino e como tal deve ocupar uma localização privilegiada. Tomemos como exemplo o comerciante que tem que abrir uma empresa. E não escolherá um beco sem saída, uma rua morta ou um porão para instalar seu negócio. Terá, isto sim, todo o cuidado de ver qual é a região mais movimentada e mais destacada para o seu estabelecimento. Ora, a biblioteca, como todo ponto comercial, tem que ser instalada levando em consideração estes pré-requisitos. Para que possa funcionar adequadamente, é importante que se avizinhe dos lugares mais movimentados durante os intervalos ou na entrada e saída dos alunos, que tenha suas portas dando para os pátios, estabelecendo assim uma comunicação direta com o espaço do lazer.

O que falta às pessoas que cuidam dessas bibliotecas (não ouso chamá-las de bibliotecárias) é um certo ardil comercial. Uma livraria, para vender seus produtos cria mecanismos de divulgação, de excitação da leitura. A biblioteca escolar é obrigada, se quer ter um papel ativo, a também se valer de artimanhas mercadológicas: criar vitrines (mesmo que sejam improvisadas), levando assim o livro para fora da biblioteca (para os lugares onde os alunos ficam quando não estão em aula), criar a lista dos livros de seu acervo que são os mais lidos etc. Um recurso bem simples (embora exija certa movimentação) é a mudança de parte dos volumes e da funcionária para o pátio. Os livros podem ficar expostos em algumas estantes destinadas a este fim, ou em bolsas de plástico transparente fixadas na parede, ou mesmo em panos estendidos no chão. A funcionária vai fazer o empréstimo ali mesmo, fornecendo ao aluno o acesso ao acervo de forma mais atrativa. Dessa maneira, poderíamos definir esta prática, continuando o paralelo empresarial, como uma sorte de show room.

Assim estaremos mudando o trânsito de mão única que obriga o leitor a ir até a biblioteca. É mais produtivo levar o livro até o leitor do que o inverso. Qualquer promotor de vendas sabe disso. Sou frontalmente contra, por experiência própria, as visitas obrigatórias.

Não pode ser esquecido que a biblioteca escolar tem uma função muito específica. Devemos redefinir o seu conceito tradicional de arquivo. Na escola, ela não tem a tarefa de catalogar e preservar livros. Não é um santuário onde devemos entrar em silêncio. É, isto sim, um labirinto vivo, palco e cenário de destinos múltiplos. Cada um deve percorrê-la da sua forma. O que será encontrado é de sua inteira responsabilidade. A funcionária deve apenas se manifestar quando solicitada. Sua presença tem que ser virtual. Não é ela a vigia dos livros, nem a inspetora de alunos, nem a mediadora oficial e onipotente entre o leitor e o livro.

Indo contra a concepção de arquivo, penso que a biblioteca deve ser uma livraria lúdica. É infrutífera toda e qualquer tentativa de separar, nas prateleiras, obras por género, período, país de origem do autor etc. Esta divisão visa a facilitar a localização dos volumes. Em última instância, serve apenas para diminuir o serviço da funcionária. Uma biblioteca pública, entretanto, não tem a função de servir aos funcionários, mas à sua clientela. Não estou querendo afirmar que os livros devam ficar jogados de qualquer maneira, mas sim que é contraproducente ordená-los meticulosamente por critérios altamente discutíveis. Vivemos um momento de completa indefinição de fronteiras entre ficção e história, conto e crônica, reportagem e conto etc. A biblioteca deve aceitar o parentesco entre as várias áreas, usando assim a palavra literatura na sua acepção mais ampla, tal como é feito nas áreas técnicas, onde se fala, por exemplo, na literatura sobre química orgânica. Literatura significa aqui tudo que foi escrito sobre.

A biblioteca escolar, já definida como o espaço da variedade, deve abolir estas fronteiras de área e de gênero e criar uma desordem mais produtiva, tal como, por exemplo, o agrupamento por faixa etária. Gostaria, no entanto, de pensá-la como uma coleção desordenada de livros. Acho que é a única forma possível de tentar ressuscitar a leitura na escola.

Se olharmos com atenção para as estantes onde centenas e centenas de volumes deixam à mostra apenas as suas lombadas, perceberemos que eles estão em gavetas mortuárias. A ordem e a classificação matam os livros. Separam-nos dos leitores. As estantes são apenas prateleiras com objetos mortos. É a desordem que cria condições de se manusear os livros. É através dela que estes emergem e se mostram de corpo inteiro, deixando de ser uma lombada desbotada, perdida entre infinidades de outras lombadas semelhantes. A desordem facilita o súbito encontro com o livro esquecido, é o advento de sua ressurreição. Só neste ambiente pode nascer uma vontade, um desejo de possuir o livro via leitura. Quero citar algumas passagens de um ensaio de Walter Benjamin chamado “Desempacotando minha biblioteca”. Aviso, entretanto, que vou descontextualizar estas passagens: “Estou desempacotando minha biblioteca. Sim, estou. Os livros, portanto, ainda não estão nas estantes; o suave tédio da ordem não os envolve” (p.227). O colecionador que espelha em seu quarto os milhares de volumes tem plena consciência de que a ordem faz com que este mar de palavras se torne monótono. Mais ainda, ele convida os leitores a habitar este anticosmos: “devo pedir-lhes que se transfiram comigo para a desordem de caixotes abertos à força, para o ar cheio de pó de madeira, para o chão coberto de papéis rasgados, por entre pilhas de volumes trazidos de novo à luz do dia”. O que nos interessa neste trecho é a revitalização dos livros pela desordem. Eles ganham vida. Passam a ter uma existência mais individualizada, mostram suas caras. Diz ainda Benjamin sobre o ato de colecionar que “toda paixão confina com o caos”. Sobre a posse dos livros, questiona: “Pois o que é a posse senão uma desordem na que o hábito se acomodou de tal modo que ela só pode aparecer como se fosse ordem?” Se toda biblioteca é formada por peças diversas, querer implantar uma ordem muito rígida acaba acomodando os livros a uma não-existência. Romper com a ordem é a tarefa do bibliotecário autêntico, pois assim estará criando novos hábitos.

Quero agora definir o sentido que dou às palavras desorganizar desordem. Busco nelas uma acepção bem específica. Desordenar significa aqui (e somente aqui) romper com a morte, ressuscitar. Inverto, para ilustrar minha exposição, uma célebre de Jorge Luís Borges: desorganizar uma biblioteca é uma forma silenciosa de exercer a crítica. Biblioteca em desordem significa, para mim, livros fora das estantes tradicionais. Significa livros expostos e não arquivados.

Como deve ser então o espaço interno da biblioteca? Pretendo novamente estabelecer um paralelo com o mundo empresarial.

O dono de um supermercado sabe que o seu produto precisa ficar de frente para o consumidor. Esta também é uma regra para os livreiros. EXPOR o produto numa altura adequada para que se estabeleça o contato visual sem grandes esforços. É esta a lição que nos lega o comerciante.

Trazendo estas regras de marketing para a biblioteca escolar, podemos dizer que única função deste temido lugar é PERMITIR O CONTATO COM O LIVRO. Por isso as estantes têm que ser feitas de forma que o livro possa ficar cara a cara com o leitor. É claro que isso vai exigir um novo conceito espacial da biblioteca. Mas tal mudança é imprescindível para o funcionamento pleno das atividades pedagógicas da escola.

Uma solução mais barata é a utilização de mesas, onde os volumes ficam deitados, mas com a face virada para o leitor. Outra saída são as bolsas de plástico transparente, penduradas no teto mas próximas do chão. Ou ainda através de ripas, levemente inclinadas, parafusadas na parede.

Esta nova mobília deve estar aliada a um conceito outro de espaço. Toda biblioteca tem que ter duas partes distintas. Numa ficará o acervo itinerante, destina ao empréstimo. Nesta sala os alunos devem ficar à vontade. Nenhuma imposição de silêncio, nenhuma preocupação com o manuseio dos livros. O espaço tem que ser de liberdade. Na outra sala ficará, se houver, o acervo permanente (enciclopédias, dicionários, atlas, revistas etc.) ou simplesmente servirá como sala de estudo. Aqui sim o silêncio deve ser cultivado.

Esta nova biblioteca vai se valer de um recurso utilizado pela indústria livreira para despertar o interesse do consumidor: as capas. O livro brasileiro é uma verdadeira obra de arte. A sua capa atrativa fisga o leitor. Colocar os livros em ordem, um ao lado do outro, em arquivos mortos, é assassinar a sua individualidade e o seu poder de conquista.

Na biblioteca que povoa meus sonhos, o livro não nos virará o rosto.


(Fonte: Revista Leitura: teoria e prática, n. 26. Campinas/Porto Alegre: ALB/Mercado Aberto, dezembro de 1995. Também publicado in Revista Literária Blau – Porto Alegre, v. 4, n. 20, p. 20-24, março de 1998.)(Divulgado por Evandro Jair Duarte – Enviado para “bibliotecários” em 11/05/2011) 

quarta-feira, 20 de março de 2013

A biblioteca escolar...


A biblioteca escolar...
http://euamobibliotecaescolar.webnode.com/news/a-biblioteca-escolar-/http://euamobibliotecaescolar.webnode.com/news/a-biblioteca-escolar-/

quinta-feira, 14 de março de 2013

BRINCANDO DE BIBLIOTECAS: UMA FORMA DE SER FELIZ

Alguém me envia um questionário de pesquisa sobre a atuação do profissional bibliotecário em projetos sociais. Nossas respostas às múltiplas perguntas se resumem numa só: a participação de bibliotecas e bibliotecários em projetos sociais é a face mais visível da biblioteca – instituição eminentemente social – e do bibliotecário como agente social. Mesmo assim, salvo honrosas exceções, nos cursos acadêmicos de Biblioteconomia, o tecnicismo ainda persiste – há distanciamento da prática social, há descompasso entre o que se diz e o que se faz. Salvo honrosas exceções, falta aos professores formação pedagógico-didática. Falta aos professores sensibilidade de uma ação conjunta entre docentes, discentes e sociedade. E a deficiência na academia se reflete na atuação “capenga” do profissional jogado no mercado de trabalho.


Resgatar o direito à informação para todos é a missão mor do bibliotecário. Mas não é imprescindível ter formação específica para exercitar a prática cidadã. Há casos, entre milhares de outros, que encantam. Por exemplo, um gaúcho de Alegrete, Robson Mendonça, com a morte trágica da mulher e dos filhos num acidente, se vê nas ruas, onde permanece por seis anos, até 2003. Em meio à desilusão extrema, um hábito não lhe abandona: o gosto pela leitura. Mas, na condição de morador de rua, enfrenta a burocracia. Não consegue usar o material das bibliotecas por falta de endereço fixo.

Decidido a retomar o rumo da vida, se apoia na leitura para resgatar a dignidade. O “ponto de arranque” é o contato com a célebre obra “A revolução dos bichos” de George Orwell. Decide criar a bicicloteca (institutomobilidadeverde. wordpress.com/bicicloteca), a partir da premissa de que a leitura é um instrumento de inclusão social por excelência. Com o apoio da ONG Mobilidade Verde (http://institutomobilidadeverde.wordpress.com) e de voluntários, sem nenhuma ajuda governamental, consegue uma bicicleta equipada com um baú contendo centenas de títulos.

Assim, desde 2003, o sessentão Robson faz circular livros variados e sonhos nas ruas de São Paulo capital. Graciliano Ramos e Jorge Amado convivem em harmonia com autores estrangeiros, a exemplo do norte-americano Truman Capote. O leitor pode devolver o livro quando quiser. Pode propor trocas. Pode passar adiante para quem se interessar. Pode fazer doações à bicicloteca. Com sua perseverança, esse cidadão brasileiro já conseguiu expandir sua ideia para bibliotáxis, que colocam livros à disposição dos clientes. Sonha em atingir os metrôs. E segue em frente apesar de já ter sido roubado – um dia, levaram sua bicicleta, posteriormente recuperada, numa evidência da violência urbana de nossas cidades.

Na Colômbia, outro exemplo de superação. Trata-se de uma biblioteca itinerante montada em dois burros, Alfa e Beto. Nesse caso, circula nas zonas rurais mais afastadas e mais empobrecidas do país, exatamente em La Gloria. Idealizada pelo professor do ensino fundamental Luis Soriano, 36 anos e habilitação em Literatura Espanhola, circula aos finais de semana. São dicionários, obras literárias, muitos livros infanto-juvenis, alguns livros didáticos. Há um pouco de tudo. São quase 5.000 títulos. Para El Profesor, mais do que novidade, é um dever social. De novo, alguém acredita no poder transformador da leitura para o ser humano e para as coletividades. De novo, os governantes se fazem ausentes.

Há muito mais. O “Projeto lê pra mim” (lepramim2010.blogspot.com) consiste em fazer com que famosos dediquem minutos de sua vida contando histórias para crianças. De autoria da atriz Sônia de Paula tem percorrido capitais brasileiras, com destaque para Belém e a capital Brasília. Todas estas são iniciativas que alertam a bibliotecários e aos cidadãos em geral sobre o poder da leitura e, quiçá, da alegria que pode haver na produção de textos. É o lado luminoso de um Brasil coalhado de analfabetos à espera de uma chance de desvendar letras e mundos!

O DIA DO BIBLIOTECÁRIO NA BIBLIOTECA ESCOLAR

http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=735

O DIA DO BIBLIOTECÁRIO NA BIBLIOTECA ESCOLAR[Março/2013]
Marilucia Bernardi

No mês de Março, mais precisamente no dia 12, comemora-se o DIA DO BIBLIOTECÁRIO. Creio que em quase todo o país são realizadas várias e diferentes atividades para que essa data e até mesmo esse mês não passe despercebido. E assim mesmo ainda podemos encontrar quem não conheça e nunca entrou em uma biblioteca, e muito menos saiba o que é um bibliotecário. 

Por esse e por outros vários motivos é que se faz necessário sim alardear essa data e marcar presença na sociedade brasileira. É mister que os bibliotecários se posicionem cada vez mais e mostrem o quanto se pode contribuir para o desenvolvimento cultural de uma nação.

Particularmente, como já tive oportunidade de trabalhar em Instituições de Ensino Superior, foi na Biblioteca Escolar que senti o quão importante, grande, necessário e gratificante é o trabalho do profissional bibliotecário. É nas séries iniciais que devemos mostrar-lhes e ensinar-lhes sobre nossa profissão. É na Biblioteca Escolar que o profissional bibliotecário vai precisar desempenhar tudo o que aprendeu na faculdade e ainda mais um pouco, pois a exigência é muito grande.

É na Biblioteca Escolar que fica mais propícia a realização de atividades relativas ao livro, à literatura e também ao bibliotecário, tornando assim, não somente o dia do profissional, mas também todo seu serviço mais conhecido da comunidade escolar.

Não que em outras esferas de trabalho não sejam necessárias aptidões, eficiência, eficácia, perfis adequados, etc., porém é na Escola de 1° e 2° graus que vamos trabalhar diretamente na formação do indivíduo, daí serem maiores o desafio e a responsabilidade. Mas, com certeza, se o trabalho for feito com dedicação, seriedade, amor e muita abnegação, o retorno, embora em menor escala do que esperado e num tempo um pouco maior também do que desejado, será bastante significativo.

Durante minha jornada pude observar que muitos profissionais bibliotecários preferem se esconder, ou seja, optam por não participar de nada, nenhum evento, atividade, curso, etc. e ficam circunscritos apenas em sua área de trabalho. Nada contra, a não ser a falta de visão do todo que esses colegas perdem, muitos até adotam a postura de somente reclamar e outros ficam até na tentativa, porém ai surgem tantas “desculpas” que acabam não fazendo nada mesmo.

O certo é que cabe a muitos de nós bibliotecários a fábula da galinha e da pata, que considero bastante apropriada para a ocasião. Essa fábula é muito interessante por se tratar de uma questão de propaganda e marketing e nos faz refletir sobre uma realidade. Algo que, com frequência, acontece na vida das pessoas, principalmente em se tratando de vida profissional, onde todos buscam melhores condições e posições.

É a história da pata que põe ovos enormes, porém se coloca numa posição de anonimato, ou seja, fica quieta e espera que os outros percebam seu enorme ovo. Assim fica bastante difícil saber o que ela está fazendo ou fez. Já a galinha, que tem a tradição de por pequenos ovos, faz um estardalhaço gigante, pula e esperneia para que todos tomem conhecimento de seu feito. Podemos perceber que ambas têm suas qualidades, mas a que melhor se comunicou foi a que mais vendeu seu trabalho. Tanto que hoje a maior parte das pessoas só conhece o ovo da galinha.

Como podemos ver essa historinha nos leva a uma reflexão sobre como devemos ser para alcançar o que queremos, não somente na área profissional e sim em toda a nossa vida. Não precisamos ser tal qual a pata e nem totalmente como a galinha, mas aprendermos com cada uma delas e fazer as coisas com qualidade e ter boa comunicação.

O trabalho do bibliotecário, apesar de ser de formigas, precisa ser propagado e “marketeado” para que cada vez mais, mais pessoas o conheçam e saibam de sua importância.

Portanto, creio ser já na Biblioteca Escolar que o bibliotecário deva iniciar esse trabalho de propaganda do que faz, de como faz e para que servirá. Sempre lembrando que para isso ele precisa ter bagagem e muitos conhecimentos e, acima de tudo, aparecer e comparecer.

Experiências com adolescentes mediando leitura.


Experiências com adolescentes mediando leitura.
Fernanda Mecking é bibliotecária do Sistema de Bibliotecas de Maringá com passagem em bibliotecas infantojuvenis em São Paulo. Atualmente ela é mestranda em Ciência da Informação na Universidade Estadual de Londrina. Por estar mais perto, pois semanalmente está em Londrina, optei por realizar uma entrevista com ela, pedindo que narrasse um pouco de suas Fernanda Mecking é bibliotecária do Sistema de Bibliotecas de Maringá com passagem em bibliotecas infantojuvenis em São Paulo. Atualmente ela é mestranda em Ciência da Informação na Universidade Estadual de Londrina. Por estar mais perto, pois semanalmente está em Londrina, optei por realizar uma entrevista com ela, pedindo que narrasse um pouco de suas experiências com adolescentes mediando leitura.

Fica aqui uma homenagem a todos aqueles que se lançam no desafio de trabalhar com essa faixa etária que muitas vezes só recebem críticas e desestímulos!
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Sueli: Quanto tempo você é formada em Biblioteconomia?

Fernanda: Há 27 anos

Sueli: Sempre trabalhou em biblioteca pública?

Fernanda: Não. Trabalhei um ano na biblioteca da Escola Politécnica da USP.

Sueli: Desde quando desenvolve projetos de leitura?

Fernanda: Desde 1991, quando fui trabalhar na biblioteca infantojuvenil de Itaquera, SP.

Sueli: Tenho maior facilidade em trabalhar com as crianças e você qual faixa de idade tem mais afinidade?

Fernanda: Sempre gostei de trabalhar com crianças também, mas sempre gostei de adolescentes – eles são um grande desafio. Vê bem, a academia nos forma para trabalhar com “usuário”, criatura sem rosto e personalidade. Não nos prepara para trabalhar com crianças, adolescentes, terceira idade, deficientes etc. Como lidar com estas pessoas? Tá, eu faço um estudo de usuários e... Como lidar com crianças que moram em cortiços e favelas (já tive estas experiências)? Também trabalhei com um grupo de terceira idade – neste caso com acompanhamento de assistente social e psicóloga.

SUELI: Como conduzir uma mediação sendo os adolescentes tão agitados?

FERNANDA: Em primeiro lugar, temos que nos despojar o máximo possível da “autoridade”, temos que falar a mesma linguagem que eles, temos que surpreendê-los também (como sou uma pessoa com gosto pelo extravagante, pintei meu cabelo de azul e eles amaram – ficaram mais acessíveis – claro que só fiz isto porque eu gosto deste tipo de coisa). É interessante trabalharmos com estagiários, porque a faixa etária é mais próxima da deles. Trabalhei um tempo assim. Treinava os estagiários, combinávamos as atividades juntos e eles coordenavam. Eu ficava na observação para ir, se preciso, ajustando as ações. O resultado foi muito bom. Em 2007 criei o Clubeteen de Leitura. Como é difícil atrair a garotada para a biblioteca, resolvi começar pelo livro Harry Potter (não tinham sido lançados todos os livros no Brasil ainda). Foi um sucesso. No entanto, quando quisemos mudar de livro eles não aceitaram. Nossa proposta era trabalhar apenas 3 meses com os livros da série, no entanto eles quiseram trabalhar com a série toda. O que mais me surpreendeu foi a vontade deles de “viver a história”. Minha equipe e eu tivemos a ideia de dividir os participantes em grupos e fazermos uma espécie de competição (como em Hogwarts). Para dividi-los, utilizamos o chapéu Seletor (com direito a trilha sonora ao fundo igual ao do filme). Confesso que quando pensei no chapéu Seletor, fiquei com medo da reação deles, mas resolvi arriscar. Eles amaram! Pediram para ter aulas, como em Hogwarts! Fala sério, pensei! Eles mergulharam de cabeça naquele mundo. Mais tarde li que uma escola inglesa utilizou deste recurso para sair do último lugar na classificação das escolas. Parece que, inclusive, todos iam vestidos de bruxos! E esta escola alcançou o primeiro lugar no ano seguinte. Acho que há algo aí para refletirmos sobre os jovens. No ano seguinte, conversamos com eles para escolher o rumo do Clubeteen. Eles não queriam sair daquele mundo. Conversando com a secretária de cultura que tinha em seu currículo mestrado em formação do leitor com experiência em aula de teatro (ela trabalhava os textos clássicos) para adolescentes, resolvemos no ano seguinte trabalhar com teatro (gregos e Shakespeare). A ideia era que eles lessem e discutíssemos, continuando com jogos e brincadeiras (eles não abriam mão disto). Foi um desastre porque a secretaria não comprava os livros no tempo certo para leitura. Infelizmente, acabei optando por desistir do projeto, até para tentar pressionar uma compra significativa de livros para o projeto.


Sueli: Que tipo de atividade, você costuma realizar. Pode descrever algumas?

Fernanda: Horas da história, oficinas diversas, encontros com escritor, oficina de quadrinhos (objetivo era mediar a leitura de quadrinhos – dei esta oficina para cerca de 600 pessoas entre crianças, jovens e professoras). O melhor projeto foi sem dúvida o Rua da Cultura com objetivo de estimular a produção cultural, a partir do resgate e divulgação das expressões culturais já existentes na comunidade atendida pela Biblioteca Pública Municipal Profª Maria Aparecida Cunha Soares (diferentes leituras). A periodicidade era mensal, sendo o foco as áreas: música, teatro, dança, literatura, artes plásticas, folclore, artesanato e memória. Para avaliar fazíamos reuniões em cada sexta-feira posterior a Rua da Cultura, às 19 horas, na Biblioteca. A reunião era aberta à comunidade e artistas. Tinha por objetivo não apenas avaliar a edição anterior, mas programar a próxima. Porém ocorreu o seguinte entrave: apesar de ser considerado um projeto “modelo a ser seguido”, houve pouco apoio da administração. Eles queriam que eu realizasse o projeto em vários bairros, algo que eu recusei, porque o objetivo maior era agregar comunidade e biblioteca – o que foi alcançado. O interessante é que aquela administração não se dispôs a fazer um projeto semelhante em outros bairros. No projeto da biblioteca, a comunidade era participante e não espectadora (o que não aconteceria se fosse itinerante!). A comunidade tinha orgulho do projeto. Ouvi relatos de pessoas falando com orgulho que a Rua da Cultura só acontecia no seu bairro. O meu maior “presente” foi quando uma adolescente que estava se apresentando, antes de começar a cantar deu um depoimento, dizendo que ela antes tinha vergonha do bairro onde morava, mas que com a Rua da Cultura ela passou a ter orgulho.

Sueli: Nunca trabalhei em uma biblioteca gerida por uma Prefeitura Municipal, mas penso que algumas situações são difíceis de contornar...

Fernanda: Muito difíceis. Em nenhuma outra repartição pública o peso da “política” é tão fortemente sentido, principalmente nas cidades do interior. Graças a Deus, algumas leis vieram (ou começaram a ser postas em prática) para acabar com alguns desmandos. Quando cheguei em Maringá, entre outras informações, eu deveria informar qual minha seção eleitoral! Outro problema que ainda ocorre, acho que em todo o país, são os cargos de confiança. Definitivamente as pessoas não poderiam ser colocadas em funções técnicas, sem a devida qualificação. Fica muito difícil conversar com alguém que não é da área, por mais boa vontade que a pessoa tenha.

Sueli: Podem participar alunos tanto de escolas públicas quanto de escolas particulares?

Fernanda: Sim, claro. A biblioteca é pública, não podemos e não fazemos distinção entre as pessoas. Este é, inclusive, um dos ditames da Unesco sobre as bibliotecas públicas. As escolas particulares participam e procuram as bibliotecas públicas com bastante frequência. Teve um ano que trabalhei no setor infantojuvenil de uma das bibliotecas, com problema de baixo movimento devido a uma série de fatores. Enviamos correspondência para todas as escolas próximas e as que não contavam com uma biblioteca próxima, falando de nossos serviços e convidando para um Bibliotur e contação de história. O Bibliotur é um projeto que ocorre, normalmente, no início do ano letivo e é dedicado às turmas de 1ª a 4ª séries. Sendo seus objetivos: incentivar a frequência e gosto pela Biblioteca; orientar quanto ao uso da Biblioteca; divulgar o acervo disponível; conscientizar sobre a importância e meios de conservar o acervo; informar quanto ao empréstimo do acervo bibliográfico; divulgar os serviços prestados pela Biblioteca; incentivar o empréstimo de livros e gibis; incentivar o gosto pela leitura. Muitas escolas particulares atenderam ao convite, enviando todas as turmas do ensino fundamental até o 4º. ano. As escolas públicas enfrentavam problemas de transporte. Outro projeto que movimenta a biblioteca é o Férias na Biblioteca que tem como objetivos: atrair as crianças para a biblioteca; incentivar o gosto pela leitura; promover a socialização entre as crianças; dar condições de autoexpressão (percebe-se que muitas crianças não são estimuladas a se expressarem. Na biblioteca, nas atividades com crianças e jovens temos uma “leizinha”: respeitar o que o outro fala e pensa - além disso, incentivamos que todas falem e que as demais escutem); incentivar a desinibição e a experiência de coisas novas; dar oportunidade para o encontro de diversidade de ambiente e de modos de ver e sentir a vida; promover a produção cultural.

Sueli: Que tipo de atividades vocês oferecem?

Fernanda: As principais são: exposições, oficinas, jogos, horas da história, apresentações artísticas etc.

Sueli: Quando fui bibliotecária no SESC, coordenadora cultural da Livraria Maluquinha e membro da Ong Mundoquelê sonhava e realizava uma ação que ainda considero fundamental para a formação do leitor – os encontros com escritores. Sei que você também trabalhava nesse sentido. Estou certa?

Fernanda: Está. Mas o encontro com o escritor há alguns anos não acontece mais por falta de verba. Geralmente ocorria próximo ao Dia Nacional do Livro Infantil, quando as cinco bibliotecas do Sistema, desenvolviam o seguinte trabalho: montavam exposição sobre o autor e sua obra; recebiam turmas de escolas interessadas, apresentavam os livros do autor e sua biografia; realizavam hora da história de um dos seus livros e o resultado dessa atividade ficava exposto num painel para visitação do autor; apresentavam para o autor os seus textos (por meio de teatro, declamação de poemas etc.).

Sueli: Isso marca a vida da gente que é adulto, imagine das crianças! Você se lembra de alguns autores que conheceu por causa desse projeto? Aqui em Londrina trouxemos o Ziraldo, Marcos Rey, Almir Correa, Liliana Iacocca, Luis Camargo, Eva Furnari, Glória Kirinus, Rogério Borges, Geni Guimarães, Carlos Chá, Orlando Colli (Maringá), Roberto Gomes, João Donha, J.J. Veiga, Regina Coeli Rennó, Carlos Urbim, Hardy Guedes, Renato Chagas, entre outros que a memória deve ter falhado.

Fernanda: Infelizmente não foram muitos (e no momento não me lembro do nome de alguns): Hardy Guedes, Nely Nucci, Tânia Machado (ilustradora).  Gostaria também de falar do Grupo de Contadores de Histórias "Quem quiser que conte outra". Este grupo era formado por estagiários e bibliotecários e ocorria nas bibliotecas municipais de Maringá com o objetivo de apoiar e desenvolver a prática de contar histórias, através da troca de experiências, leitura de textos e de capacitação técnica. As técnicas utilizadas pelos contadores de histórias iam desde a simples narrativa (que não é tão simples assim), até a utilização de formas animadas (objetos, máscaras, fantoches, bonecos etc.), formas estas que permitem a fusão da linguagem verbal e não verbal. Este Projeto foi interrompido em virtude do corte no número de estagiários e com deslocamento de bibliotecárias para a informatização do acervo.

Sueli: Infelizmente a descontinuidade é uma praga que ronda as instituições públicas e algumas decisões fogem do nosso controle (desabafo!). Porém o bichinho de carpinteiro está sempre presente em nossas almas.

Fernanda: Verdade! Assim quando a verba permite temos apresentações artísticas, com o objetivo de promover o acesso às diferentes formas culturais, enriquecendo não apenas o conhecimento da nossa herança cultural, mas ampliando ao máximo o sentido de leitura, por meio do teatro, dança, música, folguedos populares, artes plásticas etc.

Sueli: Penso que esta também é uma forma de construir um significado positivo da biblioteca e, consequentemente, levar o leitor a ter o sentimento de pertença desse espaço que é fundamental na vida do cidadão, mas que muitas vezes é preterido pelos agentes políticos em todos os escalões.

Fernanda: Uma forma de propiciar visibilidade as nossas bibliotecas é na medida do possível, sempre comemorar o aniversário delas com apresentações artísticas, oficinas, hora da história e exposição.

Sueli: Na atualidade está ocorrendo um esvaziamento numérico de pessoas nas bibliotecas públicas e talvez ela consiga retornar a sua função mais importante e interessante que é de ser um centro cultural e não apenas um espaço de pesquisas escolares. Fale um pouco das suas ideias para formar leitores, entre elas: Kit surpresa, Leitor 5 estrelas.

Fernanda: Criei o Kit Surpresa, que são pacotes com três livros, escolhidos pelo pessoal da biblioteca e que o usuário empresta sem ter ideia do que está levando. Começou como experiência, mas foi muito bem aceita pelos usuários, por dois motivos: os pais que passam na biblioteca para emprestar livros para seus filhos, acharam prático e o pacote (lembra um presente) atiça a curiosidade dos pequenos. Já os adultos, pelas conversas que temos com eles, a curiosidade e surpresa são um dos principais motivos, seguido da rapidez (não precisam ficar andando entre as estantes até achar algo que lhes interessa). Não fizemos ainda um estudo sobre isto. Quanto ao Leitor 5 Estrelas: é uma espécie de recompensa aos usuários que entregam seus livros nos prazos estipulados e cuidam dele com o devido carinho, assim recebendo o benefício de levar mais livros emprestado e com maior prazo.

Sueli: Lembrei-me agora da Gibilândia, ela ainda existe?

Fernanda: Criei a Gibilândia com objetivo de organizar, armazenar e divulgar o acervo sobre e de histórias em quadrinhos (HQ), valorizando essa literatura como uma importante expressão artística. Ela está situada na Biblioteca do Parque das Palmeiras. Ela funciona até hoje e, nesta biblioteca (o mesmo acontece em outras também - mas não em todas) o empréstimo de HQ é o carro-chefe da biblioteca.

Sueli: Para finalizar gostaria que abordasse o último projeto idealizado por você, que há anos me mandou uma cópia. Estou falando do Ler é legal!

Fernanda: Na verdade é um programa de leitura, que envolve vários projetos Este programa concorreu no Prêmio Viva Leitura de 2012 na categoria 1 – Bibliotecas públicas, privadas e comunitárias, e ficou em 10º. Lugar no Brasil (único da região Sul). Seu objetivo é ampliar e estimular o gosto e o acesso à leitura, através de múltiplas ações socioculturais que incluía estratégias que possibilitassem à população maringaense construir significados e recolher informações a partir do texto escrito. Sua composição foi planejada e realizada em 2006 Tendo como principais ações e projetos: Biblioteca Pública, Muito Prazer: Almeja a melhoria dos espaços das cinco bibliotecasAgentes de Transformação: A meta é que a equipe se veja como “[...] agentes de transformação, desempenhando um papel de importância político-sócio-cultural na comunidade” (ARANTES, 2006, p. 8). Foram realizadas duas grandes reuniões para discutir o papel de todos, como cada um poderia melhorar ou solucionar problemas do dia a dia etc. Foram organizadas mesas de discussão para que cada grupo levantasse três ou mais problemas e uma possível solução para cada um deles, sem que se contasse com o poder público. A intenção não era eliminar a responsabilidade do governo municipal, mas encontrar saídas criativas para alguns problemas. O resultado das mesas foi frustrante, pois a equipe só encontrava soluções com a ação do governo municipal; Sociedade da Informação: A meta é o acesso da comunidade à tecnologia, bem como informatizar o acervo. Foi feito um projeto para o Rotary Club Maringá e as Bibliotecas ganharam o que foi chamado de Cyber Biblioteca. As bibliotecas de bairro ganharam 2 computadores novos, uma impressora multifuncional, mesas, cadeiras, placa de sinalização e máquina fotográfica digital. A do Centro ganhou o mesmo com mais 4 computadores. Quanto a informatização do acervo, depois de muitos tropeços e inconsistências, está muito adiantada. O atual software utilizado deverá ser trocado e o serviço ficará mais ágil ainda; Grupo de Contadores de histórias “...Quem Quiser Que Conte Outra”: A intenção era retomar o Grupo criado em 1994 mas não foi possível, por falta de pessoal;Bibliotur: Visitas orientadas para que crianças e jovens conhecessem a biblioteca, seu funcionamento, seus serviços; Pontos de Leitura: Serviço de caixas-estante, infelizmente não foi implantado; Clubes de Leitura: Tem o propósito de incentivar a reflexão, a discussão e a troca de ideias a partir da leitura de um livro. Foram criados três tipos de Clube: Clubinho de Leitura (crianças até 10 anos); Clubeteen de Leitura (jovens de 11 a 15 anos) e o Clube – apelidado carinhosamente de Clubão (pessoas a partir de 16 anos). Destes, só estão ativos o Clubinho e o “Clubão”. O Clubeteen fez muito sucesso enquanto o livro lido foi Harry Potter.

Sueli: Obrigada Fernanda e Parabéns a todos os bibliotecários, em especial, àqueles que trabalham mediando leitura!


Sugestões de Leitura:

ARANTES, Fernanda Mecking. Ler é legal!!!. Maringá: Biblioteca Pública de Maringá, 2006.

PRÊMIO VIVALEITURA 2012: categoria 1 finalistas. Disponível em: . Acesso em: 28 fev.2013.


Fica aqui uma homenagem a todos aqueles que se lançam no desafio de trabalhar com essa faixa etária que muitas vezes só recebem críticas e desestímulos!
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Sueli: Quanto tempo você é formada em Biblioteconomia?

Fernanda: Há 27 anos

Sueli: Sempre trabalhou em biblioteca pública?

Fernanda: Não. Trabalhei um ano na biblioteca da Escola Politécnica da USP.

Sueli: Desde quando desenvolve projetos de leitura?

Fernanda: Desde 1991, quando fui trabalhar na biblioteca infantojuvenil de Itaquera, SP.

Sueli: Tenho maior facilidade em trabalhar com as crianças e você qual faixa de idade tem mais afinidade?

Fernanda: Sempre gostei de trabalhar com crianças também, mas sempre gostei de adolescentes – eles são um grande desafio. Vê bem, a academia nos forma para trabalhar com “usuário”, criatura sem rosto e personalidade. Não nos prepara para trabalhar com crianças, adolescentes, terceira idade, deficientes etc. Como lidar com estas pessoas? Tá, eu faço um estudo de usuários e... Como lidar com crianças que moram em cortiços e favelas (já tive estas experiências)? Também trabalhei com um grupo de terceira idade – neste caso com acompanhamento de assistente social e psicóloga.

SUELI: Como conduzir uma mediação sendo os adolescentes tão agitados?

FERNANDA: Em primeiro lugar, temos que nos despojar o máximo possível da “autoridade”, temos que falar a mesma linguagem que eles, temos que surpreendê-los também (como sou uma pessoa com gosto pelo extravagante, pintei meu cabelo de azul e eles amaram – ficaram mais acessíveis – claro que só fiz isto porque eu gosto deste tipo de coisa). É interessante trabalharmos com estagiários, porque a faixa etária é mais próxima da deles. Trabalhei um tempo assim. Treinava os estagiários, combinávamos as atividades juntos e eles coordenavam. Eu ficava na observação para ir, se preciso, ajustando as ações. O resultado foi muito bom. Em 2007 criei o Clubeteen de Leitura. Como é difícil atrair a garotada para a biblioteca, resolvi começar pelo livro Harry Potter (não tinham sido lançados todos os livros no Brasil ainda). Foi um sucesso. No entanto, quando quisemos mudar de livro eles não aceitaram. Nossa proposta era trabalhar apenas 3 meses com os livros da série, no entanto eles quiseram trabalhar com a série toda. O que mais me surpreendeu foi a vontade deles de “viver a história”. Minha equipe e eu tivemos a ideia de dividir os participantes em grupos e fazermos uma espécie de competição (como em Hogwarts). Para dividi-los, utilizamos o chapéu Seletor (com direito a trilha sonora ao fundo igual ao do filme). Confesso que quando pensei no chapéu Seletor, fiquei com medo da reação deles, mas resolvi arriscar. Eles amaram! Pediram para ter aulas, como em Hogwarts! Fala sério, pensei! Eles mergulharam de cabeça naquele mundo. Mais tarde li que uma escola inglesa utilizou deste recurso para sair do último lugar na classificação das escolas. Parece que, inclusive, todos iam vestidos de bruxos! E esta escola alcançou o primeiro lugar no ano seguinte. Acho que há algo aí para refletirmos sobre os jovens. No ano seguinte, conversamos com eles para escolher o rumo do Clubeteen. Eles não queriam sair daquele mundo. Conversando com a secretária de cultura que tinha em seu currículo mestrado em formação do leitor com experiência em aula de teatro (ela trabalhava os textos clássicos) para adolescentes, resolvemos no ano seguinte trabalhar com teatro (gregos e Shakespeare). A ideia era que eles lessem e discutíssemos, continuando com jogos e brincadeiras (eles não abriam mão disto). Foi um desastre porque a secretaria não comprava os livros no tempo certo para leitura. Infelizmente, acabei optando por desistir do projeto, até para tentar pressionar uma compra significativa de livros para o projeto.


Sueli: Que tipo de atividade, você costuma realizar. Pode descrever algumas?

Fernanda: Horas da história, oficinas diversas, encontros com escritor, oficina de quadrinhos (objetivo era mediar a leitura de quadrinhos – dei esta oficina para cerca de 600 pessoas entre crianças, jovens e professoras). O melhor projeto foi sem dúvida o Rua da Cultura com objetivo de estimular a produção cultural, a partir do resgate e divulgação das expressões culturais já existentes na comunidade atendida pela Biblioteca Pública Municipal Profª Maria Aparecida Cunha Soares (diferentes leituras). A periodicidade era mensal, sendo o foco as áreas: música, teatro, dança, literatura, artes plásticas, folclore, artesanato e memória. Para avaliar fazíamos reuniões em cada sexta-feira posterior a Rua da Cultura, às 19 horas, na Biblioteca. A reunião era aberta à comunidade e artistas. Tinha por objetivo não apenas avaliar a edição anterior, mas programar a próxima. Porém ocorreu o seguinte entrave: apesar de ser considerado um projeto “modelo a ser seguido”, houve pouco apoio da administração. Eles queriam que eu realizasse o projeto em vários bairros, algo que eu recusei, porque o objetivo maior era agregar comunidade e biblioteca – o que foi alcançado. O interessante é que aquela administração não se dispôs a fazer um projeto semelhante em outros bairros. No projeto da biblioteca, a comunidade era participante e não espectadora (o que não aconteceria se fosse itinerante!). A comunidade tinha orgulho do projeto. Ouvi relatos de pessoas falando com orgulho que a Rua da Cultura só acontecia no seu bairro. O meu maior “presente” foi quando uma adolescente que estava se apresentando, antes de começar a cantar deu um depoimento, dizendo que ela antes tinha vergonha do bairro onde morava, mas que com a Rua da Cultura ela passou a ter orgulho.

Sueli: Nunca trabalhei em uma biblioteca gerida por uma Prefeitura Municipal, mas penso que algumas situações são difíceis de contornar...

Fernanda: Muito difíceis. Em nenhuma outra repartição pública o peso da “política” é tão fortemente sentido, principalmente nas cidades do interior. Graças a Deus, algumas leis vieram (ou começaram a ser postas em prática) para acabar com alguns desmandos. Quando cheguei em Maringá, entre outras informações, eu deveria informar qual minha seção eleitoral! Outro problema que ainda ocorre, acho que em todo o país, são os cargos de confiança. Definitivamente as pessoas não poderiam ser colocadas em funções técnicas, sem a devida qualificação. Fica muito difícil conversar com alguém que não é da área, por mais boa vontade que a pessoa tenha.

Sueli: Podem participar alunos tanto de escolas públicas quanto de escolas particulares?

Fernanda: Sim, claro. A biblioteca é pública, não podemos e não fazemos distinção entre as pessoas. Este é, inclusive, um dos ditames da Unesco sobre as bibliotecas públicas. As escolas particulares participam e procuram as bibliotecas públicas com bastante frequência. Teve um ano que trabalhei no setor infantojuvenil de uma das bibliotecas, com problema de baixo movimento devido a uma série de fatores. Enviamos correspondência para todas as escolas próximas e as que não contavam com uma biblioteca próxima, falando de nossos serviços e convidando para um Bibliotur e contação de história. O Bibliotur é um projeto que ocorre, normalmente, no início do ano letivo e é dedicado às turmas de 1ª a 4ª séries. Sendo seus objetivos: incentivar a frequência e gosto pela Biblioteca; orientar quanto ao uso da Biblioteca; divulgar o acervo disponível; conscientizar sobre a importância e meios de conservar o acervo; informar quanto ao empréstimo do acervo bibliográfico; divulgar os serviços prestados pela Biblioteca; incentivar o empréstimo de livros e gibis; incentivar o gosto pela leitura. Muitas escolas particulares atenderam ao convite, enviando todas as turmas do ensino fundamental até o 4º. ano. As escolas públicas enfrentavam problemas de transporte. Outro projeto que movimenta a biblioteca é o Férias na Biblioteca que tem como objetivos: atrair as crianças para a biblioteca; incentivar o gosto pela leitura; promover a socialização entre as crianças; dar condições de autoexpressão (percebe-se que muitas crianças não são estimuladas a se expressarem. Na biblioteca, nas atividades com crianças e jovens temos uma “leizinha”: respeitar o que o outro fala e pensa - além disso, incentivamos que todas falem e que as demais escutem); incentivar a desinibição e a experiência de coisas novas; dar oportunidade para o encontro de diversidade de ambiente e de modos de ver e sentir a vida; promover a produção cultural.

Sueli: Que tipo de atividades vocês oferecem?

Fernanda: As principais são: exposições, oficinas, jogos, horas da história, apresentações artísticas etc.

Sueli: Quando fui bibliotecária no SESC, coordenadora cultural da Livraria Maluquinha e membro da Ong Mundoquelê sonhava e realizava uma ação que ainda considero fundamental para a formação do leitor – os encontros com escritores. Sei que você também trabalhava nesse sentido. Estou certa?

Fernanda: Está. Mas o encontro com o escritor há alguns anos não acontece mais por falta de verba. Geralmente ocorria próximo ao Dia Nacional do Livro Infantil, quando as cinco bibliotecas do Sistema, desenvolviam o seguinte trabalho: montavam exposição sobre o autor e sua obra; recebiam turmas de escolas interessadas, apresentavam os livros do autor e sua biografia; realizavam hora da história de um dos seus livros e o resultado dessa atividade ficava exposto num painel para visitação do autor; apresentavam para o autor os seus textos (por meio de teatro, declamação de poemas etc.).

Sueli: Isso marca a vida da gente que é adulto, imagine das crianças! Você se lembra de alguns autores que conheceu por causa desse projeto? Aqui em Londrina trouxemos o Ziraldo, Marcos Rey, Almir Correa, Liliana Iacocca, Luis Camargo, Eva Furnari, Glória Kirinus, Rogério Borges, Geni Guimarães, Carlos Chá, Orlando Colli (Maringá), Roberto Gomes, João Donha, J.J. Veiga, Regina Coeli Rennó, Carlos Urbim, Hardy Guedes, Renato Chagas, entre outros que a memória deve ter falhado.

Fernanda: Infelizmente não foram muitos (e no momento não me lembro do nome de alguns): Hardy Guedes, Nely Nucci, Tânia Machado (ilustradora).  Gostaria também de falar do Grupo de Contadores de Histórias "Quem quiser que conte outra". Este grupo era formado por estagiários e bibliotecários e ocorria nas bibliotecas municipais de Maringá com o objetivo de apoiar e desenvolver a prática de contar histórias, através da troca de experiências, leitura de textos e de capacitação técnica. As técnicas utilizadas pelos contadores de histórias iam desde a simples narrativa (que não é tão simples assim), até a utilização de formas animadas (objetos, máscaras, fantoches, bonecos etc.), formas estas que permitem a fusão da linguagem verbal e não verbal. Este Projeto foi interrompido em virtude do corte no número de estagiários e com deslocamento de bibliotecárias para a informatização do acervo.

Sueli: Infelizmente a descontinuidade é uma praga que ronda as instituições públicas e algumas decisões fogem do nosso controle (desabafo!). Porém o bichinho de carpinteiro está sempre presente em nossas almas.

Fernanda: Verdade! Assim quando a verba permite temos apresentações artísticas, com o objetivo de promover o acesso às diferentes formas culturais, enriquecendo não apenas o conhecimento da nossa herança cultural, mas ampliando ao máximo o sentido de leitura, por meio do teatro, dança, música, folguedos populares, artes plásticas etc.

Sueli: Penso que esta também é uma forma de construir um significado positivo da biblioteca e, consequentemente, levar o leitor a ter o sentimento de pertença desse espaço que é fundamental na vida do cidadão, mas que muitas vezes é preterido pelos agentes políticos em todos os escalões.

Fernanda: Uma forma de propiciar visibilidade as nossas bibliotecas é na medida do possível, sempre comemorar o aniversário delas com apresentações artísticas, oficinas, hora da história e exposição.

Sueli: Na atualidade está ocorrendo um esvaziamento numérico de pessoas nas bibliotecas públicas e talvez ela consiga retornar a sua função mais importante e interessante que é de ser um centro cultural e não apenas um espaço de pesquisas escolares. Fale um pouco das suas ideias para formar leitores, entre elas: Kit surpresa, Leitor 5 estrelas.

Fernanda: Criei o Kit Surpresa, que são pacotes com três livros, escolhidos pelo pessoal da biblioteca e que o usuário empresta sem ter ideia do que está levando. Começou como experiência, mas foi muito bem aceita pelos usuários, por dois motivos: os pais que passam na biblioteca para emprestar livros para seus filhos, acharam prático e o pacote (lembra um presente) atiça a curiosidade dos pequenos. Já os adultos, pelas conversas que temos com eles, a curiosidade e surpresa são um dos principais motivos, seguido da rapidez (não precisam ficar andando entre as estantes até achar algo que lhes interessa). Não fizemos ainda um estudo sobre isto. Quanto ao Leitor 5 Estrelas: é uma espécie de recompensa aos usuários que entregam seus livros nos prazos estipulados e cuidam dele com o devido carinho, assim recebendo o benefício de levar mais livros emprestado e com maior prazo.

Sueli: Lembrei-me agora da Gibilândia, ela ainda existe?

Fernanda: Criei a Gibilândia com objetivo de organizar, armazenar e divulgar o acervo sobre e de histórias em quadrinhos (HQ), valorizando essa literatura como uma importante expressão artística. Ela está situada na Biblioteca do Parque das Palmeiras. Ela funciona até hoje e, nesta biblioteca (o mesmo acontece em outras também - mas não em todas) o empréstimo de HQ é o carro-chefe da biblioteca.

Sueli: Para finalizar gostaria que abordasse o último projeto idealizado por você, que há anos me mandou uma cópia. Estou falando do Ler é legal!

Fernanda: Na verdade é um programa de leitura, que envolve vários projetos Este programa concorreu no Prêmio Viva Leitura de 2012 na categoria 1 – Bibliotecas públicas, privadas e comunitárias, e ficou em 10º. Lugar no Brasil (único da região Sul). Seu objetivo é ampliar e estimular o gosto e o acesso à leitura, através de múltiplas ações socioculturais que incluía estratégias que possibilitassem à população maringaense construir significados e recolher informações a partir do texto escrito. Sua composição foi planejada e realizada em 2006 Tendo como principais ações e projetos: Biblioteca Pública, Muito Prazer: Almeja a melhoria dos espaços das cinco bibliotecasAgentes de Transformação: A meta é que a equipe se veja como “[...] agentes de transformação, desempenhando um papel de importância político-sócio-cultural na comunidade” (ARANTES, 2006, p. 8). Foram realizadas duas grandes reuniões para discutir o papel de todos, como cada um poderia melhorar ou solucionar problemas do dia a dia etc. Foram organizadas mesas de discussão para que cada grupo levantasse três ou mais problemas e uma possível solução para cada um deles, sem que se contasse com o poder público. A intenção não era eliminar a responsabilidade do governo municipal, mas encontrar saídas criativas para alguns problemas. O resultado das mesas foi frustrante, pois a equipe só encontrava soluções com a ação do governo municipal; Sociedade da Informação: A meta é o acesso da comunidade à tecnologia, bem como informatizar o acervo. Foi feito um projeto para o Rotary Club Maringá e as Bibliotecas ganharam o que foi chamado de Cyber Biblioteca. As bibliotecas de bairro ganharam 2 computadores novos, uma impressora multifuncional, mesas, cadeiras, placa de sinalização e máquina fotográfica digital. A do Centro ganhou o mesmo com mais 4 computadores. Quanto a informatização do acervo, depois de muitos tropeços e inconsistências, está muito adiantada. O atual software utilizado deverá ser trocado e o serviço ficará mais ágil ainda; Grupo de Contadores de histórias “...Quem Quiser Que Conte Outra”: A intenção era retomar o Grupo criado em 1994 mas não foi possível, por falta de pessoal;Bibliotur: Visitas orientadas para que crianças e jovens conhecessem a biblioteca, seu funcionamento, seus serviços; Pontos de Leitura: Serviço de caixas-estante, infelizmente não foi implantado; Clubes de Leitura: Tem o propósito de incentivar a reflexão, a discussão e a troca de ideias a partir da leitura de um livro. Foram criados três tipos de Clube: Clubinho de Leitura (crianças até 10 anos); Clubeteen de Leitura (jovens de 11 a 15 anos) e o Clube – apelidado carinhosamente de Clubão (pessoas a partir de 16 anos). Destes, só estão ativos o Clubinho e o “Clubão”. O Clubeteen fez muito sucesso enquanto o livro lido foi Harry Potter.

Sueli: Obrigada Fernanda e Parabéns a todos os bibliotecários, em especial, àqueles que trabalham mediando leitura!


Sugestões de Leitura:

ARANTES, Fernanda Mecking. Ler é legal!!!. Maringá: Biblioteca Pública de Maringá, 2006.

PRÊMIO VIVALEITURA 2012: categoria 1 finalistas. Disponível em: . Acesso em: 28 fev.2013.